quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A perna

 É só uma perna quebrada, uma perna. Ossos que, esfacelados, tratados e cuidados, voltarão ao normal. É possível. Só uma perna quebrada, engessada até a coxa. Quando se é jovem, a recuperação é rápida. Um ano ou um pouco mais.

 É só uma perna… A mulher passa com o bebê, enquanto ele está sentado na sala. A televisão obedece às mudanças repentinas de canais. Frases são interrompidas na tela antes mesmo de iniciarem. O bebê chora no quarto — ou talvez no banheiro. A mulher grita algo. O bebê chora mais alto. É só uma perna.

 Talvez volte a andar em um ano. Jogar, não sei. Ainda é cedo para dizer. Talvez sim. Poderia ter sido pior. Mas foi só a perna. Precisa ver a moto. Quantos não tiveram chance nem de chorar por ossos quebrados?

 A porta da cozinha abre. Um cheiro de bolo. Cheiro da mãe. Everaldo! É Saúva, mãe! Tem bolo, Everaldo! Saúva está na TV, dona Isadora. De novo? E ele sai de lá? E o Jorge? Tá bem, mas chora muito. Depois passa, minha filha. Everaldo era assim. Até os cinco anos, se eu me afastasse um pouquinho, abria o berreiro.

— É Saúva, mãe — diz, encostando na porta da cozinha.

— Ah, levantou? Pensei que estava com a cadeira colada no couro. Não sai de lá para nada. Já soube que teve um filho?

— Que é isso, mulher. Veio fazer intriga?

— Intriga… Vim trazer bolo, isso sim. Quando eu vier para fazer intriga, você vai saber. E mulher é a tua, eu sou tua mãe.

— Eu sei, mãe. É que a senhora já chega falando do Jorginho.

— Falo sim. Falo mesmo. O tempo passa rápido e, se continuar sentado ali, quando for pegar o filho na escola, vai confundir com outro. Como teu pai.

— Eu já sou mais pai do Jorge do que ele foi para mim e para Ana.

— É sim, filho. E tem muito chão para continuar sendo. Venha. É de coco.

— A senhora sempre faz de coco, o preferido dele, nunca o meu — fala a irmã, entrando na casa. 

— Apareceu, Ana? Venha cá. Cadê meu cheiro?

— Tome, dona Ína. Nem sabe qual é o bolo que eu gosto, né?

— Deixe de história. Estava jogando? De novo?

— Estava. Ele não pode, mas eu posso — fala, apontando para o irmão. — Dizem que tem olheiro hoje.

— Se dizem, é porque não tem. Disseram foi para tu jogar bola. Deve estar preguiçosa — ele corta.

— Preguiçosa… Não sou eu que passo o dia sentado, apertando botão.

— Parem os dois. Não vão me dar sossego nem velhos? Estou cansada de ouvir vocês discutindo. Dois irmãos, gente.

— Tem que jogar bola sempre. Não importa se tem homem olhando ou não — ele continua, como se não estivesse escutando ninguém.

— E eu me importo com homem? Eu sou mulher de me importar com homem, Saúva? — indaga a irmã.

— Parem! Tem bolo, gente. Vamos sentar? Vamos sentar para comer agora? Os dois? — interrompe a mãe — Márcia, tem café?

— Vou fazer, dona Ína. Segura o Jorge.

 A mulher entrega o bebê a ele.

 O filho em um braço, a bengala no outro. A mãe aponta a cadeira. Ele tenta sentar. Não é fácil. O menino agarra a camisa do pai, talvez não se sinta seguro. Talvez ache que vai cair. Ele também. Cair e derrubar o filho. Na frente da mãe, da mulher, da irmã, de quem mais entrar pela porta pra ver sua desgraça. É só uma perna. Um diabo que é só uma perna. Quem mais vai entrar? Quem? 

 Até a irmã ficou calada. Por pouco tempo.

 — Me dá o Jorge, Saúva — ela se aproxima.

 — Não. Eu cuido dele — aperta o filho no braço.

 — Eu seguro enquanto você senta.

 — Vai pra porra, Ana. Eu consigo.

 — Não fala palavrão na frente dele — intervém sua mulher.

 — Você acha que ele entende, Márcia? É um gênio?

 — Ele não entende, mas ele sente. Não quero que ele sinta coisas ruins. Olha aqui o café. Me dá o Jorge.

 — Eu quero ficar com ele, Márcia.

 — Saúva, me dá o Jorge.

 — Eu não posso ficar com meu filho?

 — Ela só vai trocar o menino, filho — diz a mãe.

 — Vocês acham que eu vou derrubar o Jorginho, né? Né isso? — grita, encarando as três, a bengala trêmula na mão, a criança bamba no braço.

 O menino começa a chorar.

 — Pronto, agora ele está chorando. Demorei quase um dia para acalmar e agora de novo — lamenta Márcia.

 — Calma, minha filha. Everaldo, venha cá. Pronto, me dê o Jorginho. Isso. Shhhh. Está tudo bem. Tudo bem, meu menino. Isso. Assim. Tudo bem. Agora coma o bolo.