Há um pirata na casa ao lado da minha. Ele vive silencioso, quieto, talvez à espera, talvez planejando. Não, não é invenção. Há um pirata. Daqueles de um olho só, faixa atravessada no esquerdo, perna de pau, barba a chegar nos pés. Dente de ouro.
Minha mãe falou pra não me aproximar dos muros da casa. Segundo ela, ratos, escorpiões e baratas são a verdadeira ameaça. Disse, como para que eu não pudesse contestar, Se for até lá, uma semana sem televisão.
Eu adoro televisão e a minha mãe. Não sou de fazer arte ou desobedecer. Claro, não vamos contar as vezes em que a curiosidade ultrapassa algumas regras. Sou criança, é típico. Crianças sempre querem saber mais.
O que acontece é que hoje, enquanto ela trabalhava na sala, o computador grudado nos olhos, falei que ia beber água e corri pro quintal dos fundos. Não corri de verdade, sabe? Fui devagarzinho, passinhos rasteiros, silenciosos, quase como flutuasse. O que correu foi o coração. A expectativa.
Grudei o ouvido na parede, espiei pelo buraquinho que encontrei no muro, olhei antes para todos os lados para ver se tinha escorpião, e esperei. Esperei o que pareceram horas. Naquele dia não achei nada além de um quintal sujo e ansiedade. Um nome que aprendi para nomear isso aqui, que me fez escrever agora. Contar os minutos pro amanhã. E escapar de novo.
Dessa vez, ela estava no telefone. Minha mãe é home office. Uma profissão que entendo como algo que não tem horário do dia pra acabar. Se estamos almoçando e o telefone toca, ela sai da mesa. Uma noite acordei para beber água e a luz do computador estava acesa no quarto ao lado do meu.
Eu esperei que ela pegasse o papel e anotasse coisas que o trabalho pede e corri daquele jeito que vocês já conhecem — meio flutuante, meio apressada. O pirata não apareceu mais uma vez. Ainda tentei procurar algo além das plantas que tomavam tudo, quase invadindo nossa casa. Acho que vi uma pá. Sonhei com um baú de tesouros.
Meu nome é Amália. Eu não gosto dele. Minha mãe diz que é lindo, mas meus amigos não entendem assim. Amada, Ama, eu gosto quando me chamam de Lia. Decidi assinar Lia nas tarefas de casa e os professores me pediram para completar. Será que não entendem? Não é a gente que deveria escolher quem é?
Demorou bastante para conseguir ir ao quintal dessa vez. Depois de um choro de quase um dia da minha mãe, descobri que o homeoffice tinha acabado e que agora sua nova profissão era desempregada. Não entendi por que se preocupava, agora tínhamos mais tempo. Logo, fui vendo que não comprávamos mais o requeijão que eu mais gostava e diminuíamos outras coisas. Vamos nos mudar, Amália. Pra casa da vovó. Teremos que nos desfazer de algumas coisas, sabe? Lá é menorzinho que aqui. Vamos doar alguns brinquedos.
Eu não sabia se gostava menos do homeoffice ou do desemprego. Encaixotar era chato, por mais que gostasse da vovó. Resolvi doar a Lia, minha boneca que era Lia mesmo. Não dormia mais com ela há algum tempo. Mas naquela noite, nos despedimos abraçadas.
Minha mãe estava cuidando da mudança e ajudando a colocar as coisas no caminhão, quando corri — corri mesmo — pro muro da casa. Minha surpresa foi tão grande que Lia que estava em meus abraços caiu no chão.
O quintal estava limpo e um homem, de costas, cavava algo no que agora parecia um jardim. Não consegui enxergar a perna da direita — deveria ser a de pau, mas a barba era grande e quando se virou, pulei pra trás com o susto. Não vi a perna direita, mas vi o brilho de um sorriso de ouro.