Ele sempre foi decente comigo. Não recordo nenhum dia em que fiquei incomodada com alguma abordagem, alguma troca de mensagem, algum flerte. Éramos amigos. Conversávamos porque gostávamos da troca e da conexão. De compartilhar histórias. Embora, quando tento recordar, acho que pouco falávamos sobre ele. Conversávamos muito sobre mim.
Não lembro exatamente como nos conhecemos. Sei que ele tinha um primo e que, em algum ponto, eu e o primo dele trocamos mensagens. Lembro do carinho de um pelo outro. Com nenhum dos dois, tive problemas. É incrível que isso me surpreenda, não? Ter sido tratada com decência por meninos. Recebido atenção desinteressada e amizade. Conto nos dedos de uma mão esse tipo de conexão. Fui uma jovem tão atraente quanto inocente. E isso dá um combo perigoso. Caí em muitas armadilhas.
Lembro que conversavamos muito sobre sentimentos. Eu tinha tantos. Um poço fundo deles. Certamente contei sobre o amor impossível e trágico que me tomava aqueles dias. Um que me protegia de outros amores impossíveis e trágicos. E ele escutou. Acho que foi sensível aos meus problemas. Não lembro as palavras, mas lembro da sensação de ser ouvida. Com respeito. E ontem, quando reencontrei o seu nome, em uma lista de nomes públicos, lembrei deste lugar em que estive com ele. Confortável, amigo e decente. Decente é a palavra. Decente. E talvez seguro. Amigo.
É engraçado essa coisa do tempo. Perdemos pessoas e contatos bons. Me levou a vasculhar ontem um e mail antigo. Ele estava lá. Tinha mudado de cargo, tinha foto com terno. Perdi tudo isso porque nossa relação nunca foi forte o suficiente para que eu não tivesse perdido. O que me leva a pensar também nas relações que atravessam o tempo e permanecem. Embora tivessem tudo para se perder também.
Não nego que algumas delas, quando retornam, faço de tudo para bloquear. Literal e sentimentalmente. Algumas coisas marcam, mas de forma ruim. Todas as relações em que fui tratada como objeto especificamente me foram muito dolorosas. Ao contrário daquelqs em que fui vista, inesquecíveis. É bom ser visto, escutado, ter seus sentimentos validados, ser tratado como único. É um estado de conforto universal. Todos deveriam poder experimentá-lo. Ser humano à vista do outro. Enxergar e ser visto. Um fim e nunca um meio. Não dá esperar que uma professora de filosofia não recorde um princípio de dignidade Kantiano tão lógico, não é?
Talvez hoje, eu me perderia na multidão aos seus olhos. No espaço em que tantos e tantas apertam as suas mãos. Nos milhões de seguidores e nas milhões de mensagens de boa sorte. Vasculhei um pouco suas propostas. Entendi que nossos estômagos comungam de uma mesma fome. De justiça e igualdade social, embora suas bandeiras estejam mais altas e seus caminhos mais claros neste propósito. Me orgulhei. Do amigo jovem e idealista que eu não sabia que tinha. E, não me engano, não conheço o homem. Só me permiti ficar feliz por ele ao ponto de escrever sobre. Sem mais.
A sensação de bem estar de nossas conversas, embora perdidas e esquecidas no tempo, me acompanham nesta manhã. Um outro tipo de fantasma que me fez ignorar as coisas concretas e partir para o texto. Para o sentimento que me traz o texto. Para sair um pouco daqui.
Estou na sala verde. Minha sala de bases filosoficas e bioetica em psicologia. Estou me despedindo dela. As cadeiras estão vazias e aqui, vivi muitas trocas e momentos que não foram superificias. Fecho os olhos e lembro de alguns sorrisos. Mas é tão recente. como vou saber que essa sensação atravessará o tempo também?
Eu vi que meu antigo amigo não saiu vencedor da batalha que travou. Hoje não deve estar sendo um dia bom pra ele. Não posso dizer: fique bem. Não posso dizer: continue. Nem posso dizer: que incrível o teu caminho, sabe que me surpreendeu mas até que de tu eu esperava algo assim? Nem posso dizer que fiquei orgulhosa. O tempo nos transformou em estranhos e, possivelmente, ele não lembra de mim. Até ontem, ele também me continuaria um estranho. Ou só um jovem legal que me tratou com decência ao ponto de eu nao ter esquecido o seu nome, a sensação de estar com ele e de ter ficado feliz por suas conquistas. Estou.