Ok, eu gostei do novo visual. Tinha um pouco de dificuldade em assumir isso, mas venho aprendendo que nomear sentimentos é transformador. Acho que, na análise — venho evitando estudar sobre para não atrapalhar o processo, então sim, é pura impressão — o espelho perturba tanto quanto liberta.
Estava iniciando a tarefa de lavar os pratos, presa entre a obrigação de manter a pia limpa e o desejo de terminar de ler um livro bobo, quando surgiu algo que encerrou todas as dúvidas. Sim, foi a primeira frase deste texto e os movimentos que, a partir dali, sobrevieram. Ainda não sei como vou terminar. Vamos descobrir juntos. Vamos seguir como costumamos fazer.
O fato é que, quase sempre, quando canso de mim, meus cabelos é que sofrem. Já os pintei de tantas cores e usei em tantos formatos que me cansaria descrever. Agora, estão cortados e fazem cócegas no meu ombro. Adoro a sensação. É como um chamado para sorrir. Estou sorrindo agora.
Não há barulho na vizinhança além do que sai da nossa casa. Será que os vizinhos escutam? O som de três pessoas que criam, cada uma em seu espaço e à sua maneira? Os tecs do meu teclado, os gritos que não grito, o som grave do baixo do meu marido, os rasga-rasgas de papel picotado que minha filha espalha no chão ou o barulho do lápis arranhando uma folha em branco em busca de figuras, desenhos, cores? As inúmeras vezes em que ela chama "mamãe"? Agora mesmo, me pediu seis folhas. Entreguei antes mesmo de perguntar para quê serviriam. Depois me contou que eram para criar envelopes. Vai distribuir uns presentinhos que passou a manhã inteira fazendo, caso encontre amigos hoje. Queria ter tido uma amiga como a minha filha.
Hoje, assistiremos "Babe, o Porquinho". Passei a semana ansiando por isso, embora quase não tenha tido tempo de ansiar, entre uma obrigação e outra. Mais uma coisa que a análise vem fazendo é esse resgate do universo infantil. Não, calma. Esse resgate da minha criança. Deixei-a esquecida por tanto tempo, como se fosse possível tirá-la de mim. Acreditei que a maturidade exigia que calasse o seu olhar. E, ah... que bobagem. A fantasia me foi tão cara lá quanto é aqui. E é bom dizer isso, finalmente. Deveria ter criado menos barreiras para mim. Para ela. Não, para mim.
Deixa eu tentar explicar. Sempre tive medo de herdar os delírios do meu pai. E, por isso, a racionalidade me serviu como um lenço. Serve. Então a fantasia, embora me atraia como poucas coisas, foi renegada, quase proibida. Mas não existem os textos? Sim, existem os textos. Um universo em que tudo é permitido e no qual me permito. Como sou. Sim, existem os textos.
E o fato é que vieram os novos, infantis. Resgatei-os das histórias que joguei ao vento. E estão aqui, comigo. Enquanto escrevo crescem em algum lugar de mim. Ou todos.
Minha filha pediu.
De presente para o próximo aniversário.
E um pedido de filha tem o encanto de ganhar forma como nenhum outro, entende?
Minha criança gostou. E agora, quero presentear as duas.