Ele arrancou a flor, a única flor. Eu repudiei o ato. Uma flor deve permanecer na natureza, firme, enraizada. É preciso terra para brotar, florescer, ser flor. Viver. Ele me entrega a flor morta como se fosse um presente. Eu faço sinal que não, mas não é sobre ele, é sobre a flor.
Então, eu abro a porta de casa, quero novas flores, coloridas, petúnias coloridas, já comprei os vasos, três vasos pequenos, mas bem fundos, o jardineiro insistiu que fossem fundos para a terra permanecer úmida, assim preservam-se as raízes por mais tempo, Antônio testou e indicou o jardineiro, ele também abomina buquê de flores que morrerão a seguir, nunca me entregou sequer uma rosa solitária no tempo em que fomos um casal e continua pensando da mesma forma, embora sua esposa não compreenda por que não ganha flores em épocas especiais.
Mas isso é uma bobagem, penso enquanto atravesso a rua, como pode-se medir afeto através de presentes e ainda mais de flores mortas, ou prestes a morrer, ali vai a Carolina, talvez consiga dizer oi e contar o episódio do assassinato do meu jardim, mas já são quase cinco horas, Carolina não se contenta com uma pequena conversa, me arrastará para a primeira casa de bolo, a da Esquina 12, nunca saio de lá sem saborear um Red Velvet com café coado, não sou adepta dos cafés expressos, Antônio é. Lembro que trocava as nossas xícaras e sorria com as minhas caretas no primeiro gole e eu sempre caía no mesmo truque, porque estava tão encantada com Antônio que sequer pensava quando estávamos juntos. O Red Velvet da casa da esquina tem cobertura além da conta, então dou as costas à Carolina, pensando no mal que me fará comer tanto doce e somo a isso o horário. Cinco e quinze! De que horas Antônio comentou que a jardinaria fechava? Deveria ter trocado o salto alto pelo médio, ele não se importaria, ah, ali está! Se andar um pouco mais rápido, chego a tempo.