quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sobre regaste, análise e textos

 Ok, eu gostei do novo visual. Tinha um pouco de dificuldade em assumir isso, mas venho aprendendo que nomear sentimentos é transformador. Acho que, na análise — venho evitando estudar sobre para não atrapalhar o processo, então sim, é pura impressão — o espelho perturba tanto quanto liberta.

Estava iniciando a tarefa de lavar os pratos, presa entre a obrigação de manter a pia limpa e o desejo de terminar de ler um livro bobo, quando surgiu algo que encerrou todas as dúvidas. Sim, foi a primeira frase deste texto e os movimentos que, a partir dali, sobrevieram. Ainda não sei como vou terminar. Vamos descobrir juntos. Vamos seguir como costumamos fazer.

O fato é que, quase sempre, quando canso de mim, meus cabelos é que sofrem. Já os pintei de tantas cores e usei em tantos formatos que me cansaria descrever. Agora, estão cortados e fazem cócegas no meu ombro. Adoro a sensação. É como um chamado para sorrir. Estou sorrindo agora.

Não há barulho na vizinhança além do que sai da nossa casa. Será que os vizinhos escutam? O som de três pessoas que criam, cada uma em seu espaço e à sua maneira? Os tecs do meu teclado, os gritos que não grito, o som grave do baixo do meu marido, os rasga-rasgas de papel picotado que minha filha espalha no chão ou o barulho do lápis arranhando uma folha em branco em busca de figuras, desenhos, cores? As inúmeras vezes em que ela chama "mamãe"? Agora mesmo, me pediu seis folhas. Entreguei antes mesmo de perguntar para quê serviriam. Depois me contou que eram para criar envelopes. Vai distribuir uns presentinhos que passou a manhã inteira fazendo, caso encontre amigos hoje. Queria ter tido uma amiga como a minha filha.

Hoje, assistiremos "Babe, o Porquinho". Passei a semana ansiando por isso, embora quase não tenha tido tempo de ansiar, entre uma obrigação e outra. Mais uma coisa que a análise vem fazendo é esse resgate do universo infantil. Não, calma. Esse resgate da minha criança. Deixei-a esquecida por tanto tempo, como se fosse possível tirá-la de mim. Acreditei que a maturidade exigia que calasse o seu olhar. E, ah... que bobagem. A fantasia me foi tão cara lá quanto é aqui. E é bom dizer isso, finalmente. Deveria ter criado menos barreiras para mim. Para ela. Não, para mim. 

Deixa eu tentar explicar. Sempre tive medo de herdar os delírios do meu pai. E, por isso, a racionalidade me serviu como um lenço. Serve. Então a fantasia, embora me atraia como poucas coisas, foi renegada, quase proibida. Mas não existem os textos? Sim, existem os textos. Um universo em que tudo é permitido e no qual me permito. Como sou. Sim, existem os textos.

E o fato é que vieram os novos, infantis. Resgatei-os das histórias que joguei ao vento. E estão aqui, comigo. Enquanto escrevo crescem em algum lugar de mim. Ou todos. 

Minha filha pediu. 

De presente para o próximo aniversário. 

E um pedido de filha tem o encanto de ganhar forma como nenhum outro, entende?

Minha criança gostou. E agora, quero presentear as duas. 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um novo segredo antigo e árvores que balançam sem vento


Sara Lúcia morava no alto da colina e, todas as manhãs, descia, colhendo flores, para a escola que ficava à beira do rio.

O rio que atravessava a cidade, diziam, nascia bem perto de onde Sara Lúcia morava, quase no quintal. Mas a menina nunca tinha avistado a sua nascente. Sequer soubera que existia até o seu aniversário de sete.

No assoprar das velas, antes de estourarem os sete balões, a mãe de Sara Lúcia sussurro-lhe ao ouvido segredos da floresta.

A floresta que guardava o rio desde que se acomodou na terra, fazendo nascer a cidade e tudo que brotava.

Foi a mãe da mãe da mãe da tataravô de Sara Lúcia quem banhou, em sua nascente, a primeira criança da família.

Foi ela também quem aprendeu com as árvores as canções que abriam seus caminhos. E os escondiam quando fosse preciso.  

As mulheres da família de Sara Lúcia eram guardiãs das canções que protegiam o rio, para que suas águas permanecessem vivas.  

Mas a mãe de Sara Lúcia nunca chegou a aprendê-las. Sua própria mãe calou-se para sempre no dia em que ela nasceu.

Mãe e filha olhavam a floresta todos os dias, sabendo que deveriam guardá-la, ainda que não conhecessem seus segredos.

Um dia, enquanto penduravam roupas no varal do quintal, observando o topo das árvores balançar sem que houvesse vento, Sara Lúcia começou a cantar.

Não demorou para que a mãe, ao ouvir a voz da filha, encontrasse dentro de si todas as canções que precisava. 

Assim, ouvi contarem que aquele foi o dia em que as duas atravessaram a floresta pela primeira vez e banharam-se cantando, na nascente do rio.
 
E, boiando naquele espelho antigo, desconhecido, mas ainda assim, familiar, Sara Lúcia viu o céu de um ângulo nunca antes visto e assistiu a noite descer sobre o mundo. Trazendo sonhos que ainda não pertenciam a ninguém.



segunda-feira, 25 de maio de 2026

Dente de ouro

Há um pirata na casa ao lado da minha. Ele vive silencioso, quieto, talvez à espera, talvez planejando. Não, não é invenção. Há um pirata. Daqueles de um olho só, faixa atravessada no esquerdo, perna de pau, barba a chegar nos pés. Dente de ouro.

Minha mãe falou pra não me aproximar dos muros da casa. Segundo ela, ratos, escorpiões e baratas são a verdadeira ameaça. Disse, como para que eu não pudesse contestar, Se for até lá, uma semana sem televisão.

Eu adoro televisão e a minha mãe. Não sou de fazer arte ou desobedecer. Claro, não vamos contar as vezes em que a curiosidade ultrapassa algumas regras. Sou criança, é típico. Crianças sempre querem saber mais. 

O que acontece é que hoje, enquanto ela trabalhava na sala, o computador grudado nos olhos, falei que ia beber água e corri pro quintal dos fundos. Não corri de verdade, sabe? Fui devagarzinho, passinhos rasteiros, silenciosos, quase como flutuasse. O que correu foi o coração. A expectativa. 

Grudei o ouvido na parede, espiei pelo buraquinho que encontrei no muro, olhei antes para todos os lados para ver se tinha escorpião, e esperei. Esperei o que pareceram horas. Naquele dia não achei nada além de um quintal sujo e ansiedade. Um nome que aprendi para nomear isso aqui, que me fez escrever agora. Contar os minutos pro amanhã. E escapar de novo.

Dessa vez, ela estava no telefone. Minha mãe é home office. Uma profissão que entendo como algo que não tem horário do dia pra acabar. Se estamos almoçando e o telefone toca, ela sai da mesa. Uma noite acordei para beber água e a luz do computador estava acesa no quarto ao lado do meu.

Eu esperei que ela pegasse o papel e anotasse coisas que o trabalho pede e corri daquele jeito que vocês já conhecem — meio flutuante, meio apressada. O pirata não apareceu mais uma vez. Ainda tentei procurar algo além das plantas que tomavam tudo, quase invadindo nossa casa. Acho que vi uma pá. Sonhei com um baú de tesouros.

Meu nome é Amália. Eu não gosto dele. Minha mãe diz que é lindo, mas meus amigos não entendem assim. Amada, Ama, eu gosto quando me chamam de Lia. Decidi assinar Lia nas tarefas de casa e os professores me pediram para completar. Será que não entendem? Não é a gente que deveria escolher quem é?

Demorou bastante para conseguir ir ao quintal dessa vez. Depois de um choro de quase um dia da minha mãe, descobri que o homeoffice tinha acabado e que agora sua nova profissão era desempregada. Não entendi por que se preocupava, agora tínhamos mais tempo. Logo, fui vendo que não comprávamos mais o requeijão que eu mais gostava e diminuíamos outras coisas. Vamos nos mudar, Amália. Pra casa da vovó. Teremos que nos desfazer de algumas coisas, sabe? Lá é menorzinho que aqui. Vamos doar alguns brinquedos.

Eu não sabia se gostava menos do homeoffice ou do desemprego. Encaixotar era chato, por mais que gostasse da vovó. Resolvi doar a Lia, minha boneca que era Lia mesmo. Não dormia mais com ela há algum tempo. Mas naquela noite, nos despedimos abraçadas.

Minha mãe estava cuidando da mudança e ajudando a colocar as coisas no caminhão, quando corri — corri mesmo — pro muro da casa. Minha surpresa foi tão grande que  Lia que estava em meus abraços caiu no chão. 

O quintal estava limpo e um homem, de costas, cavava algo no que agora parecia um jardim. Não consegui enxergar a perna da direita — deveria ser a de pau, mas a barba era grande e quando se virou, pulei pra trás com o susto. Não vi a perna direita, mas vi o brilho de um sorriso de ouro.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Não voe

Voar. Voar é um movimento. Criar asas, penas. Fazer-se pássaro. Abrir os novos membros, aceitar o novo corpo, acreditar no impossível quando sempre te disseram não. Não voe.

Voar pode ser um direito. Um escape, um delírio. Mas ela não encontrava tempo pra escapar. Antes das cinco, deixava o café pronto em casa e montava na cinquentinha com o companheiro para, às seis, deixar pronto o café dos outros. O filho ficava em casa. Ajeitava as cobertas, soltava um beijo. Deus abençoe.

Já disseram que poderia ser presa. Abandonar o filho assim. Mas, com menos idade que o menino, já ajeitava o pasto. Arrancava cana. Derrubava terra. O filho, com oito, ia pra escola. O ônibus a doze quilômetros da porta. Era levantar e correr. Levar o café pronto que tinha na mesa, se não acordasse a tempo de comer em casa. A farda estendida na cabeceira da cama. A cama com colchão. Que bom que o filho podia ter uma vida diferente da dela.

Enquanto os movimentos dos outros aconteciam ao seu redor, a vida se organizando em oportunidades pra alguns, ela lavava a roupa, ajeitava a comida, faxinava os espaços até as beiras, passava a roupa de todos, enquanto, com a mão, arrumava a dela. A casa não era grande. Mas, de seis às seis, não dá tempo de fazer tudo. Quando fechou o último pacote de lixo e esperou o marido na porta dos patrões, lembrou que tinha tarefa da escola pra fazer. Abriu o celular. Uma redação. Sobre a cidade.

Enquanto passavam de motoca, observava, ligeiro, o que poderia ter escrito. A cidade fechando as portas, os últimos funcionários do comércio respirando o primeiro ar do dia. As fardas coloridas das lojas, que agora conseguia ler os nomes. E escrever sobre elas. Os pais morreram sem saber; o filho aprendeu antes dela. 

A praça acendia. Bonita. As estrelas despontando acima dela. Tão opacas ali, competindo com as luzes artificiais. Satisfeitos com o que está embaixo, poucos olham pro céu. A cidade. Uma cidade que brilha, mas que não enxerga as estrelas.

O filho estava sentado perto da porta quando chegou. Um ioiô na mão.

— Mãe, olhe o que ganhei!

Ela sorri pro menino. Talvez o primeiro sorriso do dia.

— Jantou?

— O pai ajeitou o cuscuz.

— E as tarefas?

O menino não responde. O ioiô sobe, desce.

— Olha isso, mãe!

Ela sabe que não fez. Senta com ele, o céu à frente. No campo, as estrelas é que brilham. Alisa os braços.

— Tá frio, não tá? Vamos entrar?

— Quero ficar um pouquinho.

— Quem te deu isso?

— A professora trouxe um sacão, todo mundo ganhou um. Pergunta pro Zito. O dele é azul.

— O seu também.

— Mas o meu azul é mais bonito.

Voar. Voar como um direito de escapar. Talvez o primeiro sorriso do dia. Talvez o último. Talvez concordar com o filho, alisar os cabelos, beijar o topo da cabeça. 

— Sim, filho. É. Posso tentar?

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Luana e a gravidade

Ela era tão bonita. Tinha olhos pequenos e dentes certinhos, como uma régua. Quando sorria, um furo no rosto aparecia. Dizem ser uma atrofia, as barrocas. Mas o certo é que combinam com algumas pessoas. As dela combinavam com ela.

Luana. Um nome etéreo. Sim, não imaginam uma Luana comum, imaginam? Uma metódica e disciplinada. Não. Há de existirem Luanas assim — perdoem as generalizações —, mas, quando penso em Luana, penso nela. E ela é das que o nome combina. Então, ser Luana é como ser extraterrena, além das convenções. Mais de rupturas do que de remendos. Luana que bagunça a sala enquanto senta no chão, mesmo tendo um sofá para sentar. Luana que traz bolo. De ameixa. Ainda que você não goste.

Um dia, não faz muito tempo, estávamos as duas a experimentar uns vestidos. Eu pus o rosa. Luana, adivinha? Escolheu um laranja. Há de aparecer, não, Luana? Aproveitar-se das pequenas deixas para mostrar-se inteira? Luana sabia. Uma mulher não deve se esconder. Ainda que com atrofias. Uma mulher, uma mulher... uma mulher precisa de várias coisas, mas primeiro de espaço. Para ser. Luana sabia. Luana é. Luana foi.

Meus medos e receios, contei todos a ela. Escutava, sim. Não parecia muito atenta — o nome não ajudava. Mas vinha com um conselho ou com uma mão sobre a minha. Dizia-me, com os olhos, coisas que as palavras não alcançavam. Sim, ainda agora estou tentando buscá-las. Digo, as palavras. Tão boas, mas tão poucas. Há de sempre precisar inventar mais. Luana tinha os gestos e eles também falavam. Luana olhava para o alto quando não sabia o que dizer. E eu a acompanhava. Ficávamos as duas voltadas para o além. E, em alguns dias, isso curava tudo.

Me curava. Curava Luana? A calça jeans apertada, a blusa amarrada com um nó caindo pelas pernas cruzadas, a expressão fechada... se não fossem as barrocas, nada denunciava que sorria. E eu, tão perto, não conseguia fechar os olhos, não conseguia escapar...

Talvez seja o meu nome. Raísa. Como que enraizada, como que impregnada de terra. Me curo ao olhar para o alto, mas me perco tão pouco nos espaços em que não toco. Já se perguntou? Por que a Terra precisa da Lua? Dizem que é para movimentar o oceano; dizem que é para possibilitar as marés. E a Lua, por outro lado, é inteira sem a Terra. Mas vagaria. Perder-se-ia pelo espaço. A gravidade da Terra segura a Lua, não permite que parta. E, enquanto não me perco o suficiente para sorrir — ou ter barrocas —, me pergunto o que é salvação, o que é prisão. Já Luana não pergunta. Entrega ao universo as respostas.

domingo, 15 de março de 2026

Quando você para de se movimentar e não está em busca de novos meios e maneiras para buscar esse movimento, muito provavelmente está morto. Morto, de certa forma, embora vivo. É o que me faz buscar aplicar técnicas diferentes, ler livros com estruturas fora do comum, escrever pelo avesso. A ousadia não me é particular como pessoa. Penso muito, a consciência pesa, o filtro perpassa por quase tudo. Então, ao me conceder essas experimentações na escrita, me concedo um pouco o que eu não tenho, para além dela. O fluxo de consciência é uma busca, aparentemente, recente, mas é uma busca que aparece lá. Lá atrás. Embora a intensidade do interesse tenha ocorrido quando descobri um nome pra ele. Por que tenho facilidade de escrever? Em qualquer lugar, espaço e contexto? Eu deixo que a escrita aconteça. É um dos meus poucos luxos totalmente livres. Aqui está ela, acontecendo. Não a controlo, não filtro, nunca sei aonde vai chegar. Aqui está ela e é isso. Apenas isso. Que bom. 

sábado, 14 de março de 2026

Pé de camomila


Amo quando você me pede pra abrir a porta e deixar a noite entrar na casa. Amo porque também amo a noite e você, com essa cara, pedinte, sonhando com coisas que se misturam. Há coisa mais distante e próxima ao mesmo tempo do que o céu e a terra? Agora, as estrelas parecem quase cair na nossa casa e, você está vendo?, um pouco mais de luz, como eu, agora? O bule está chiando, o chá quase pronto, também amo estrelas e camomila, como acalma, como nos acalma sentir esse vento frio, entrando, convidando e nos fazendo sentar um pouco depois na varanda, as vacas distantes, tolas como nós, perigos na floresta. Eu sempre quis morar perto de uma floresta, com animais silvestres e passarinhos que nunca vou conhecer, que visitam muito cedo e muito antes que eu acorde e você talvez os veja mais do que eu porque acordou cedo ou dormiu tarde e eu quero tomar chá com você e sentir o sabor da camomila em teus lábios e puxar o teu lençol e te ouvir reclamar sobre isso. Ouvir tuas reclamações ainda é melhor do que não ouvi-las. Pequenos momentos que nos fazem saber que existimos. Não tem lua no céu, não importa. Talvez tenha amanhã. Ainda assim, tem o sabor de camomila, hummm. Amo assim, adoçado, você prefere amargo. Quase sempre te ofereço o chá puro, mas algumas, sorrindo, coloco umas pedras de açúcar e você entende. Entende quando brinco. Você gosta das minhas pequenas piadas e ainda dá dois goles no chá, antes de jogar o resto no matinho que cresce fora de casa. E pega o amargo, me faz beber e eu sorrindo, depois dos dois goles, despejo o resto no mesmo lugar em que você esvaziou o seu. E viu? Pequenas flores brancas nascendo? Um pé de camomila.