sexta-feira, 10 de abril de 2026

Não voe

Voar. Voar é um movimento. Criar asas, penas. Fazer-se pássaro. Abrir os novos membros, aceitar o novo corpo, acreditar no impossível quando sempre te disseram não. Não voe.

Voar pode ser um direito. Um escape, um delírio. Mas ela não encontrava tempo pra escapar. Antes das cinco, deixava o café pronto em casa e montava na cinquentinha com o companheiro para, às seis, deixar pronto o café dos outros. O filho ficava em casa. Ajeitava as cobertas, soltava um beijo. Deus abençoe.

Já disseram que poderia ser presa. Abandonar o filho assim. Mas, com menos idade que o menino, já ajeitava o pasto. Arrancava cana. Derrubava terra. O filho, com oito, ia pra escola. O ônibus a doze quilômetros da porta. Era levantar e correr. Levar o café pronto que tinha na mesa, se não acordasse a tempo de comer em casa. A farda estendida na cabeceira da cama. A cama com colchão. Que bom que o filho podia ter uma vida diferente da dela.

Enquanto os movimentos dos outros aconteciam ao seu redor, a vida se organizando em oportunidades pra alguns, ela lavava a roupa, ajeitava a comida, faxinava os espaços até as beiras, passava a roupa de todos, enquanto, com a mão, arrumava a dela. A casa não era grande. Mas, de seis às seis, não dá tempo de fazer tudo. Quando fechou o último pacote de lixo e esperou o marido na porta dos patrões, lembrou que tinha tarefa da escola pra fazer. Abriu o celular. Uma redação. Sobre a cidade.

Enquanto passavam de motoca, observava, ligeiro, o que poderia ter escrito. A cidade fechando as portas, os últimos funcionários do comércio respirando o primeiro ar do dia. As fardas coloridas das lojas, que agora conseguia ler os nomes. E escrever sobre elas. Os pais morreram sem saber; o filho aprendeu antes dela. 

A praça acendia. Bonita. As estrelas despontando acima dela. Tão opacas ali, competindo com as luzes artificiais. Satisfeitos com o que está embaixo, poucos olham pro céu. A cidade. Uma cidade que brilha, mas que não enxerga as estrelas.

O filho estava sentado perto da porta quando chegou. Um ioiô na mão.

— Mãe, olhe o que ganhei!

Ela sorri pro menino. Talvez o primeiro sorriso do dia.

— Jantou?

— O pai ajeitou o cuscuz.

— E as tarefas?

O menino não responde. O ioiô sobe, desce.

— Olha isso, mãe!

Ela sabe que não fez. Senta com ele, o céu à frente. No campo, as estrelas é que brilham. Alisa os braços.

— Tá frio, não tá? Vamos entrar?

— Quero ficar um pouquinho.

— Quem te deu isso?

— A professora trouxe um sacão, todo mundo ganhou um. Pergunta pro Zito. O dele é azul.

— O seu também.

— Mas o meu azul é mais bonito.

Voar. Voar como um direito de escapar. Talvez o primeiro sorriso do dia. Talvez o último. Talvez concordar com o filho, alisar os cabelos, beijar o topo da cabeça. 

— Sim, filho. É. Posso tentar?

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Luana e a gravidade

Ela era tão bonita. Tinha olhos pequenos e dentes certinhos, como uma régua. Quando sorria, um furo no rosto aparecia. Dizem ser uma atrofia, as barrocas. Mas o certo é que combinam com algumas pessoas. As dela combinavam com ela.

Luana. Um nome etéreo. Sim, não imaginam uma Luana comum, imaginam? Uma metódica e disciplinada. Não. Há de existirem Luanas assim — perdoem as generalizações —, mas, quando penso em Luana, penso nela. E ela é das que o nome combina. Então, ser Luana é como ser extraterrena, além das convenções. Mais de rupturas do que de remendos. Luana que bagunça a sala enquanto senta no chão, mesmo tendo um sofá para sentar. Luana que traz bolo. De ameixa. Ainda que você não goste.

Um dia, não faz muito tempo, estávamos as duas a experimentar uns vestidos. Eu pus o rosa. Luana, adivinha? Escolheu um laranja. Há de aparecer, não, Luana? Aproveitar-se das pequenas deixas para mostrar-se inteira? Luana sabia. Uma mulher não deve se esconder. Ainda que com atrofias. Uma mulher, uma mulher... uma mulher precisa de várias coisas, mas primeiro de espaço. Para ser. Luana sabia. Luana é. Luana foi.

Meus medos e receios, contei todos a ela. Escutava, sim. Não parecia muito atenta — o nome não ajudava. Mas vinha com um conselho ou com uma mão sobre a minha. Dizia-me, com os olhos, coisas que as palavras não alcançavam. Sim, ainda agora estou tentando buscá-las. Digo, as palavras. Tão boas, mas tão poucas. Há de sempre precisar inventar mais. Luana tinha os gestos e eles também falavam. Luana olhava para o alto quando não sabia o que dizer. E eu a acompanhava. Ficávamos as duas voltadas para o além. E, em alguns dias, isso curava tudo.

Me curava. Curava Luana? A calça jeans apertada, a blusa amarrada com um nó caindo pelas pernas cruzadas, a expressão fechada... se não fossem as barrocas, nada denunciava que sorria. E eu, tão perto, não conseguia fechar os olhos, não conseguia escapar...

Talvez seja o meu nome. Raísa. Como que enraizada, como que impregnada de terra. Me curo ao olhar para o alto, mas me perco tão pouco nos espaços em que não toco. Já se perguntou? Por que a Terra precisa da Lua? Dizem que é para movimentar o oceano; dizem que é para possibilitar as marés. E a Lua, por outro lado, é inteira sem a Terra. Mas vagaria. Perder-se-ia pelo espaço. A gravidade da Terra segura a Lua, não permite que parta. E, enquanto não me perco o suficiente para sorrir — ou ter barrocas —, me pergunto o que é salvação, o que é prisão. Já Luana não pergunta. Entrega ao universo as respostas.

domingo, 15 de março de 2026

Quando você para de se movimentar e não está em busca de novos meios e maneiras para buscar esse movimento, muito provavelmente está morto. Morto, de certa forma, embora vivo. É o que me faz buscar aplicar técnicas diferentes, ler livros com estruturas fora do comum, escrever pelo avesso. A ousadia não me é particular como pessoa. Penso muito, a consciência pesa, o filtro perpassa por quase tudo. Então, ao me conceder essas experimentações na escrita, me concedo um pouco o que eu não tenho, para além dela. O fluxo de consciência é uma busca, aparentemente, recente, mas é uma busca que aparece lá. Lá atrás. Embora a intensidade do interesse tenha ocorrido quando descobri um nome pra ele. Por que tenho facilidade de escrever? Em qualquer lugar, espaço e contexto? Eu deixo que a escrita aconteça. É um dos meus poucos luxos totalmente livres. Aqui está ela, acontecendo. Não a controlo, não filtro, nunca sei aonde vai chegar. Aqui está ela e é isso. Apenas isso. Que bom. 

sábado, 14 de março de 2026

Pé de camomila


Amo quando você me pede pra abrir a porta e deixar a noite entrar na casa. Amo porque também amo a noite e você, com essa cara, pedinte, sonhando com coisas que se misturam. Há coisa mais distante e próxima ao mesmo tempo do que o céu e a terra? Agora, as estrelas parecem quase cair na nossa casa e, você está vendo?, um pouco mais de luz, como eu, agora? O bule está chiando, o chá quase pronto, também amo estrelas e camomila, como acalma, como nos acalma sentir esse vento frio, entrando, convidando e nos fazendo sentar um pouco depois na varanda, as vacas distantes, tolas como nós, perigos na floresta. Eu sempre quis morar perto de uma floresta, com animais silvestres e passarinhos que nunca vou conhecer, que visitam muito cedo e muito antes que eu acorde e você talvez os veja mais do que eu porque acordou cedo ou dormiu tarde e eu quero tomar chá com você e sentir o sabor da camomila em teus lábios e puxar o teu lençol e te ouvir reclamar sobre isso. Ouvir tuas reclamações ainda é melhor do que não ouvi-las. Pequenos momentos que nos fazem saber que existimos. Não tem lua no céu, não importa. Talvez tenha amanhã. Ainda assim, tem o sabor de camomila, hummm. Amo assim, adoçado, você prefere amargo. Quase sempre te ofereço o chá puro, mas algumas, sorrindo, coloco umas pedras de açúcar e você entende. Entende quando brinco. Você gosta das minhas pequenas piadas e ainda dá dois goles no chá, antes de jogar o resto no matinho que cresce fora de casa. E pega o amargo, me faz beber e eu sorrindo, depois dos dois goles, despejo o resto no mesmo lugar em que você esvaziou o seu. E viu? Pequenas flores brancas nascendo? Um pé de camomila. 

Peco em metáforas

 O restaurante era claro, agradável. O muro de vidro do chão ao teto, passava a impressão de estarmos no mar. O mar que se misturava um pouco mais adiante com um rio famoso, que cortava a cidade em vários pedaços de lugarejos que poderiam ser ilhas, mas que as pontes aproximavam a ponto de chamarmos de bairros. A ponto de nos sentirmos menos afastados.

Ele descansava a mão na taça, revezava o olhar entre o prato e o horizonte, mas não parecia enxergar nenhum dos dois. Eu, em silêncio, só, aguardando o almoço fora de hora, fiz um brinde aos pensamentos daquele homem. Desejei sabê-los, conhecê-los, cortar os limites que os afastam dos outros. Desvendá-los como nunca e quem sabe assim, dividir os meus. Desejei. Intensamente. Até o meu prato chegar na mesa e trocar, assim, o meu desejo.

Não sou uma mulher má. Mas peco bastante. Peco metaforicamente. Talvez devesse pecar como os outros. Mas peco sempre pedindo perdão por pecar. E assim, os meus pecados não saem. Ficam dentro. Algumas vezes, me enforcam, me pedem, imploram. Mas devoro-os, mastigo-os, engulo. Eu sou a rainha de querer pecar. E assim, peco, como falei antes, em metáforas. E peco bastante. 

O prato do homem esfria. Como não poderia notar? Desde que cheguei a peixada jaz, murcha. E o peixe, já morto, espera que o seu destino se cumpra. Cumpra com uma garfada. Sinto compaixão pelo destino daquele peixe que morreu por nada. E um pouco de raiva daquele homem que desdenha do seu destino. Estou um pouco louca esses dias. Desejo e detesto. E os pensamentos escapam antes que consiga pensar sobre eles. E estão assim, agora.

O garçom pergunta se quero alguma coisa e eu digo que não. Mas quero. Quero o peixe daquele homem da mesa do canto. Perto do vidro, colado com o mar. Quero. Mesmo frio. Quero provar, sentir o sabor. O sabor do seu abandono. Frio. Deve ser frio o abandono porque o frio dói mais que o calor e o abandono ainda dói mais do que o frio. Então há de ser frio, gelado. Como as duas pedras que pedi para colocar no suco, porque estou tentando ser religiosa e o álcool não combina com isso. Deve ser gelado como a pedra do meu suco que só está aqui porque abandonei o vinho. Mas prefiro o vinho. Detesto suco. Como detesto este lugar e as paredes de vidro. Então quero. Quero estar no mar. Não a impressão de estar nele. Quero mergulhar, afundar, sentir o sabor das águas misturadas do mar-rio... Pode me levar pra lá?

Severino é uma pessoa que eu admiro. Ontem, ainda ontem, falou com Ana que queria trocar de vida com ela. Ana disse que era louco, que não há nada em sua vida a invejar, mas Severino, ainda assim, pediu à Ana. Me dá tua vida. Ana hesitou. Não cedeu. Mas Severino é de viver mais que ela, faz as coisas, desbrava. Ana é comedida. Severino quer a vida de Ana e Ana não quer dá. Mesmo achando a vida Severino melhor do que a dela. A dela é dela. Severino que cuide da dele. Acho que admiro mais Ana.

O garçom coloca um bilhete em minha mesa. Ana e Severino se afastam. Me descubro no restaurante de vidro. Abro o papel. Uma nota. Um recado. Olho pro homem sentado na mesa perto do mar, mas separado por paredes como eu. Ainda que transparentes. Estamos presos, ele diz. Seus olhos brilham. Agora ele me olha. Eu balanço a cabeça. Ele entende. Que bom que entende. Também peca? Em metáforas? Me oferece quase um sorriso, eu ofereço um ainda menor. Ele acena pro meu prato. Sim, claro. Também deixei esfriar.





quinta-feira, 12 de março de 2026

Lupa para enxergar as hortênsias (e os enterros dos insetos)

A cigarra está morta no quintal, as perninhas duras, para cima. As asas servindo de manto por baixo do corpo. Não voará amanhã, nem hoje.

Enquanto abro a porta de vidro, nos raros momentos em que encontro intervalos para olhar meu jardim, me pergunto há quanto tempo jaz por aqui, tão perto. Já estaria morta ontem, quando no mesmo horário, pela manhã, escapou-me da vista? Assim como a hortênsia azul que pensei que só abriria em julho? Perdi de salvá-la de algum perigo, como também perdi de admirar a ousadia das flores que decidiram nascer fora da estação? Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?

Se me escapassem as formigas que, em fileiras, organizam-se para recolhê-la, talvez me invadissem outras questões. Mas, por me permitir divagar sobre a vida dos insetos, me sinto viva. Sossego.

Já me falaram que cigarras morrem depois que acasalam e que formigas fazem banquetes com o que encontram no caminho. Não são criteriosas as formigas ou, se o são, possuem a lógica dos próprios critérios. Vejo-as — por que não? — vejo-as seguindo, ao meu olhar, determinadas.

Não desviam as formigas. Não se separam no caminho, não desistem. Seguem para recolher a cigarra, sem saber que, daqui a uns dois minutos, recolherei o inseto antes. Colocarei a carcaça em um saco, fecharei sem um segundo olhar e o levarei para um lugar onde não a alcançarão. 

E, no intervalo entre o futuro lamento das formigas e o meu, por todos os cantos interrompidos, me pergunto há quanto tempo. Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Havia o nada

Se eu não carregasse pastas, notebooks, livros, quando caísse, ouviriam apenas o estrondo do meu corpo batendo no chão. Os materiais continuariam intactos e eu gritaria um viva pela integridade deles a despeito da minha.

Ela subiu a escada, a saia preta batendo nas pernas, o sapato vermelho aparecendo e desaparecendo com o movimento. Estava bonita, as olheiras marcavam os olhos, sem disfarces, mas havia os cabelos em coque, uma franja fugidia no rosto, os óculos contrastando com sua pele pálida, assim como a roupa, escura. Sua assinatura.

O prédio era velho. Sentiu que deveriam deixá-lo descansar.  As paredes estavam pintadas de um bege, que poderia ser branco. As tábuas de madeira reclamavam, incomodadas, com os movimentos noturnos. Assim como as pessoas que se arrastavam por elas, procurando café. Não havia café. Um pingo sequer para curar o que cura o café. Não havia.

Ao passar pelos quadros nos corredores, uma voz do passado, a estimulou a olhar para o alto. Um padre morto devolveu-lhe o olhar. Severo, disciplinador. Um olhar eterno para os passantes, imortalizado em tinta óleo. Havia coisas mais interessantes para se pintar, mas era o padre que ocupava o corredor. A pintura grande de doer o pescoço. Encarou por pouco tempo. Mas não sentiu os tremores.

Se não fosse o acidente há uns dez anos atrás, sofreria de medo e coisas afins. Assombrações quase pediam para serem encontradas pelos corredores longos e por trás das portas de madeira que rangiam, especialmente quando todos já haviam abandonado as salas e se dirigiam para uma sexta quase no fim. 

Algumas vezes, permanecia na sala, a porta de madeira desafiando-a a ir embora em seus movimentos e rangidos fantasmagóricos. Outras, recolhia os materiais e saía para os corredores, dando boa noite para os docentes que ainda esperavam o horário de bater o ponto. Juntos, compartilhavam tanto a sensação de dever cumprido, quanto o desejo de ir embora.

Quase nunca tinha vontade de trocar ideias. Se fosse possível trocar pensamentos, seria mais apropriado, a contar que os seus, invadiam —  sempre — em demasia. Trocaria a agonia inerte, a apatia que carregava junto com as pastas que abraçava nos braços, a letargia. Possivelmente receberia algo. Possivelmente.

Se não fosse o acidente...

Esta noite, dirigiu-se à janela da sala. O barulho dos saltos invadindo o silêncio. A praça na frente não inspirava beleza. Talvez descuido, talvez maus tratos. Talvez algo que não enxergava além das sombras. E embora o céu também não inspirasse poemas naquele dia, permaneceu com a noite, a olhar o que não podia ver, deixando-se respirar o que se pode.

Não havia perfume. Não havia beleza. Não havia som, música, sequer uma nota. Não havia estrelas ou lua. Árvores sim, mas não havia vento para embalá-las, fazê-las dançar com o movimento, desafiá-las a manterem-se em pé. Não havia raios, nem sequer ameaças de chuvas. Talvez se a tempestade descesse, uma tromba de água, mesmo que rápida, mesmo que passageira... mas a noite era silêncio e só. Mais uma. Apenas mais uma.