Se eu não carregasse pastas, notebooks, livros, quando caísse, ouviriam apenas o estrondo do meu corpo batendo no chão. Os materiais continuariam intactos e eu gritaria um viva pela integridade deles a despeito da minha.
Ela subiu a escada, a saia preta batendo nas pernas, o sapato vermelho aparecendo e desaparecendo com o movimento. Estava bonita, as olheiras marcavam os olhos, sem disfarces, mas havia os cabelos em coque, uma franja fugidia no rosto, os óculos contrastando com sua pele pálida, assim como a roupa, escura. Sua assinatura.
O prédio era velho. Sentiu que deveriam deixá-lo descansar. As paredes estavam pintadas de um bege, que poderia ser branco. As tábuas de madeira reclamavam, incomodadas, com os movimentos noturnos. Assim como as pessoas que se arrastavam por elas, procurando café. Não havia café. Um pingo sequer para curar o que cura o café. Não havia.
Ao passar pelos quadros nos corredores, uma voz do passado, a estimulou a olhar para o alto. Um padre morto devolveu-lhe o olhar. Severo, disciplinador. Um olhar eterno para os passantes, imortalizado em tinta óleo. Havia coisas mais interessantes para se pintar, mas era o padre que ocupava o corredor. A pintura grande de doer o pescoço. Encarou por pouco tempo. Mas não sentiu os tremores.
Se não fosse o acidente há uns dez anos atrás, sofreria de medo e coisas afins. Assombrações quase pediam para ser encontradas pelos corredores longos e por trás das portas de madeira que rangiam, especialmente quando todos já haviam abandonado as salas e se dirigiam para uma sexta quase no fim.
Algumas vezes, permanecia na sala, a porta de madeira desafiando-a a ir embora em seus movimentos e rangidos fantasmagóricos. Outras, recolhia os materiais e saía para os corredores, dando boa noite para os docentes que ainda esperavam o horário de bater o ponto. Juntos, compartilhavam tanto a sensação de dever cumprido, quanto o desejo de ir embora.
Quase nunca tinha vontade de trocar ideias. Se fosse possível trocar pensamentos, seria mais apropriado, a contar que os seus, invadiam — sempre — em demasia. Trocaria a agonia inerte, a apatia que carregava junto com as pastas que abraçava nos braços, a letargia. Possivelmente receberia algo. Possivelmente.
Se não fosse o acidente...
Esta noite, dirigiu-se à janela da sala. O barulho dos saltos invadindo o silêncio. A praça na frente não inspirava beleza. Talvez descuido, talvez maus tratos. Talvez algo que não enxergava além das sombras. E embora o céu também não inspirasse poemas naquele dia, permaneceu com a noite, a olhar o que não podia ver, deixando-se respirar o que se pode.
Não havia perfume. Não havia beleza. Não havia som, música, sequer uma nota. Não havia estrelas ou lua. Árvores sim, mas não havia vento para embalá-las, fazê-las dançar com o movimento, desafiá-las a manterem-se em pé. Não havia raios, nem sequer ameaças de chuvas. Talvez se a tempestade descesse, uma tromba de água, mesmo que rápida, mesmo que passageira... mas a noite era silêncio e só. Mais uma. Apenas mais uma.
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