sábado, 16 de maio de 2026

A casa dos ratos e festividade das fadas

As folhas cresceram e ultrapassaram o muro da casa. Era um pé de mamão e agora uma floresta que ameaça ocupar tudo. Não nego a beleza. O sol faz brilhar o verde e a brisa balança os galhos. Uma pequena borboleta amarela se perde pelo mato; outra, da mesma cor, surge e parece encontrá-la. Elas dançam diante de mim. Eu escrevo sobre elas.

Depois do baile, tem a parede da casa. Rachada do teto alto ao alicerce, parece prestes a desabar sobre mim. Mas eu observo o céu acima dela e as nuvens a caminho de ganhar formatos significativos. Ali, me parece um coelho. Ao lado, o cachorro doente e amado de um amigo. Meus olhos enchem de água. Eu sempre busco controlar as lágrimas. Deu certo.

É uma casa abandonada.

Quando nos mudamos para a vizinhança, os supostos donos ainda cuidavam do jardim dos fundos, embora não morassem lá. Deixaram-na imponente em dois andares, talvez uns quatrocentos metros de casa. Inacabada.

Atravessa a parte de trás da minha e de dois vizinhos que conheço pouco, mas que reclamam de ratos e pragas que saem de lá. Os ratos ainda não chegaram aqui. Me pergunto quanto tempo temos. Me pergunto se escalam muros, se sobem em pés de mamão. Sim, me sinto agradecida por ser ignorante sobre ratos. E espero continuar sendo. Espero que continuem preferindo a casa dos vizinhos.

Da janela onde escrevo, vejo uma parte do jardim. Uma parede gigante, sem janelas, sem cortes, coberta de cimento cru. Se me debruço um pouco mais, consigo enxergar a janela do meio. Canos pendem por dentro da casa. Deveriam levar o quê? Elétrica? Hidráulica?

Quem estacionou essa casa no tempo? Quem a condenou a uma existência incompleta, uma promessa? Quem edificou suas possibilidades e suspendeu-as com descuido? Quem abandona algo assim? Tão perto...

Claro, criei histórias para a casa. Para além de dificuldades factíveis e reais. Aventuras homéricas. Romances policiais. Uma coleção de assombrações para cada um de seus espaços. Mistérios. Há alguém escondido? Um quartel de tráfico? Quase ligo para a polícia em três, dois, um, mas agora há uma festividade de fadas que dedico aos pequenos. Animais mágicos e um portal dimensional. Coisas para além do que tocamos.

Talvez minha filha esteja certa em me pedir um livro infantil.

Quase esqueci os ratos.

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