quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um novo segredo antigo e árvores que balançam sem vento


Sara Lúcia morava no alto da colina e, todas as manhãs, descia, colhendo flores, para a escola que ficava à beira do rio.

O rio que atravessava a cidade, diziam, nascia bem perto de onde Sara Lúcia morava, quase no quintal. Mas a menina nunca tinha avistado a sua nascente. Sequer soubera que existia até o seu aniversário de sete.

No assoprar das velas, antes de estourarem os sete balões, a mãe de Sara Lúcia sussurro-lhe ao ouvido segredos da floresta.

A floresta que guardava o rio desde que se acomodou na terra, fazendo nascer a cidade e tudo que brotava.

Foi a mãe da mãe da mãe da tataravô de Sara Lúcia quem banhou, em sua nascente, a primeira criança da família.

Foi ela também quem aprendeu com as árvores as canções que abriam seus caminhos. E os escondiam quando fosse preciso.  

As mulheres da família de Sara Lúcia eram guardiãs das canções que protegiam o rio, para que suas águas permanecessem vivas.  

Mas a mãe de Sara Lúcia nunca chegou a aprendê-las. Sua própria mãe calou-se para sempre no dia em que ela nasceu.

Mãe e filha olhavam a floresta todos os dias, sabendo que deveriam guardá-la, ainda que não conhecessem seus segredos.

Um dia, enquanto penduravam roupas no varal do quintal, observando o topo das árvores balançar sem que houvesse vento, Sara Lúcia começou a cantar.

Não demorou para que a mãe, ao ouvir a voz da filha, encontrasse dentro de si todas as canções que precisava. 

E essa foi a história do dia em que as duas atravessaram a floresta pela primeira vez e banharam-se cantando, na nascente do rio.
 
E boiando naquele espelho antigo, desconhecido, mas ainda assim, familiar, Sara Lúcia viu o céu de um ângulo nunca antes visto e assistiu a noite descer sobre o mundo. Trazendo sonhos que ainda não pertenciam a ninguém.



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