Não adianta. Tudo parece caminhar até o encontro da avalanche. E é assim. Os dias bons, as flores, as mangas tiradas do pé, o respiro, as borboletas. Ainda agora, o cantarolar dos passarinhos.
Eu sou de observar palmeiras, as pontas das palmeiras, onde o céu parece encostar e o vento faz balançar como se fossem passos de dança. As conchas escondidas nas areias, as pequenas patas dos caramujos que fogem ao me encontrar e o colorido degradê dos siris. Eu sou de contar as ondas que batem e voltam, as marolas da praia, até o mar se agitar. Até o mar avançar ao ponto de bater nos meus pés e me convidar para um mergulho. Eu não sou de mergulhar no mar.
Sou feita de areia, pó de areia. Uma escultura frágil criada para ser levada pelos fenômenos da natureza. Sei que vou desmoronar. Esfarelar, transformar-me no que já fui outrora. Talvez o vento, talvez um raio, talvez uma onda maior, talvez o tempo. Impedida de me levantar e correr, observo a garça bicar os peixes e voar, apropriando-se do céu, do mar e da terra, enquanto eu permaneço.
Sonhei outro dia, ainda que de olhos abertos, com uma cauda, uma asa, uma possibilidade de me libertar. Quem dera o escultor tivesse me destinado um encanto, um encanto que fosse, no lugar de tanta humanidade.
Um encanto, um lugar, ao invés de…Sou feita de areia, pó de areia. Partículas, danças das palmeiras, o mar encostando na ponta dos pés, fotografias do sol, vindas da lua, pequenas ondas, o mergulho que não vem, conchas tímidas, pó de areia. Desejo. Pó.
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