A cigarra está morta no quintal, as perninhas duras, para cima. As asas servindo de manto por baixo do corpo. Não voará amanhã, nem hoje.
Enquanto abro a porta de vidro, nos raros momentos em que encontro intervalos para olhar meu jardim, me pergunto há quanto tempo jaz por aqui, tão perto. Já estaria morta ontem, quando no mesmo horário, pela manhã, escapou-me da vista? Assim como a hortênsia azul que pensei que só abriria em julho? Perdi de salvá-la de algum perigo, como também perdi de admirar a ousadia das flores que decidiram nascer fora da estação? Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?
Se me escapassem as formigas que, em fileiras, organizam-se para recolhê-la, talvez me invadissem outras questões. Mas, por me permitir divagar sobre a vida dos insetos, me sinto viva. Sossego.
Já me falaram que cigarras morrem depois que acasalam e que formigas fazem banquetes com o que encontram no caminho. Não são criteriosas as formigas ou, se o são, possuem a lógica dos próprios critérios. Vejo-as — por que não? — vejo-as seguindo, ao meu olhar, determinadas.
Não desviam as formigas. Não se separam no caminho, não desistem. Seguem para recolher a cigarra, sem saber que, daqui a uns dois minutos, recolherei o inseto antes. Colocarei a carcaça em um saco, fecharei sem um segundo olhar e o levarei para um lugar onde não a alcançarão.
E, no intervalo entre o futuro lamento das formigas e o meu, por todos os cantos interrompidos, me pergunto há quanto tempo. Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?
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