Era manhã, o sol brilhava. Cada parte do corpo deitada na sombra, o cabelo espalhado pra trás, a roupa leve, a respiração lenta...deixava-se ficar em cima da maior pedra, no meio do nada, do mato, perto do açude, pegando a terceira árvore pela direita, ficando lá.
Sentiu quando chegava: vinha quebrando sua paz, invadindo, rasgando. O corpo se ergueu, as maos apertaram o peito, os olhos atentos pra aquilo que chegava, que vinha...
O que seria, o que era, saberia a seguir...mas vinha correndo, vinha com pressa de chegar, se aproximava mais e mais, a cada pedaço do tempo, mais e mais...
Fechou as maos no decote do vestido, pensou em esconder-se atras da árvore, observou que nada a camuflaria e que o que quer que vinha, o que quer q fosse, colocaria os olhos sobre ela, a conheceria.
E a cena foi assim: ela já tinha se erguido, de pé, fitava aflita sua chegada. Ele que nao esperou encontrar ninguem e terminou por encontra-la. Em cima da pedra, vestido leve, cabelos ao vento, olhos escuros e enormes, apreensivos, curiosos. Ele que chegou e foi até ela.
Soltou um bom dia e esperou resposta que nao veio. Aproximou-se aos poucos e sorrindo, disse seu nome e de onde vinha. Perguntou sobre ela e nada ouviu. Observou que as maos ainda apertavam o vestido, segurando firme, no decote que leva ao peito, ao coração. O que ela fazia ali era a proxima pergunta, mas o silencio veio a seguir, como antes e sempre.
A moça nao piscava, nao tirava os olhos dele. Parecia temerosa, parecia que fugiria a qualquer instante, parecia que evaporaria no proximo minuto e nada que fizesse a partir daí, a traria de volta, a colocaria diante dele.
Sentou-se querendo a moça e resolvendo nao querer. Nada mais disse, nada mais falou. Deixou-se ficar ali, do lado dela. E a moça estatica, em pé, olhando-o, desejando, receiando...
Quando o barulho de saias mudou, quando ela sentou-se, olhando-o, resolveu encara-la, perder-se em seus olhos, ficar ali. E, pensando que ela fugiria, descobriu que ia ficar.
E assim começou a conversar com a moça, que nada falava, nem ouvia, mas lançava com o silencio mil perguntas que aprendeu a responder sem palavras.
E caíram noites e mudaram dias, a historia que continuou em tempos de sol, de sombras e que nunca terminou, nunca termina.
