Haja gritos silenciosos de humilhação e olhares vazios para entender que aqui não é o meu lugar.
Tenho em Recife o meu porto, meu espaço seguro, minhas raízes. Tenho, nessa cidade - meio velha, meio nova - o meu último suspiro romântico, minhas intenções boêmias, minha alma, a que ainda cultivo e guardo, como se fosse possível.
Hoje, depois de dez dias percorrendo lugares que amo, trocando passos com meus conterrâneos, ensaiando diálogos, interrompidos pelo sopro líquido da contemporaneidade - um sopro brusco, um sopro bruto, dissolvido em intenções monetárias a cada passo, um ritmo de vida frenético, relações de emprego inseguras e metas extraordinárias a cumprir; percorrendo os corredores de uma megalópole em construção, arranha-céus ao inalcance dos olhos, desvios para instalações de intenções corporativas, me sinto sufocada, me sinto oprimida. Adoeço.
Tudo é shopping na cidade que amo. O respiro é lucro, a violência se justifica com "sempre fui bom para você, mas vaza do meu negócio". A humanidade do viciado que já foi um menino, onde está? Onde está?
Ah, são tantas as perguntas que me faço. Percorri três quilômetros de esperança, visitei lugares amados, queridos, perpétuos nos meus amores, nos meus sonhos, nas minhas viagens de alma. A queda foi estúpida, não estava preparada.
Estou triste, Recife. Me sinto abandonada.
E eu estou falando de você, mas poderia substituir teu nome por lugares em que a crueza e frieza da linha do novo, estejam transformando em grandes.
Grandes para quem? Grandes por quê?
Talvez não seja você que me doa. Talvez seja o tempo. Um tempo em que a minha filha terá que compreender para sobreviver. Um tempo mais dela do que meu. Eu tomaria as preocupações dela, todas, se pudesse. Eu engoliria os céus cinzentos e as decepções. E o que me resta, já que não ignoro o que não me cabe? Desejar? Desejar que melhore?
Visto tuas cores, amado lugar, sinto tuas ruas, tua cultura, tuas pessoas, enquanto derramo essas linhas e lamento. Há em mim culpa, dor e esperança. E, nem assim, menos amor. Nunca.
O que faz doer mais.