sábado, 14 de março de 2026

Peco em metáforas

 O restaurante era claro, agradável. O muro de vidro do chão ao teto, passava a impressão de estarmos no mar. O mar que se misturava um pouco mais adiante com um rio famoso, que cortava a cidade em vários pedaços de lugarejos que poderiam ser ilhas, mas que as pontes aproximavam a ponto de chamarmos de bairros. A ponto de nos sentirmos menos afastados.

Ele descansava a mão na taça, revezava o olhar entre o prato e o horizonte, mas não parecia enxergar nenhum dos dois. Eu, em silêncio, só, aguardando o almoço fora de hora, fiz um brinde aos pensamentos daquele homem. Desejei sabê-los, conhecê-los, cortar os limites que os afastam dos outros. Desvendá-los como nunca e quem sabe assim, dividir os meus. Desejei. Intensamente. Até o meu prato chegar na mesa e trocar, assim, o meu desejo.

Não sou uma mulher má. Mas peco bastante. Peco metaforicamente. Talvez devesse pecar como os outros, com ações, com verdade. Mas peco sempre pedindo perdão por pecar. E assim, os meus pecados não saem. Ficam dentro. Algumas vezes, me enforcam, me pedem, imploram. Mas devoro-os, mastigo-os, engulo. Eu sou a rainha de querer pecar. E assim, peco, como falei antes, em metáforas. E peco bastante. 

O prato do homem esfria. Como não poderia notar? Desde que cheguei a peixada jaz, murcha. E o peixe, já morto, espera que o seu destino se cumpra. Cumpra com uma garfada. Sinto compaixão pelo destino daquele peixe que morreu por nada. E um pouco de raiva daquele homem que desdenha do seu destino. Estou um pouco louca esses dias. Desejo e detesto. E os pensamentos escapam antes que consiga pensar sobre eles. E estão assim, agora.

O garçom pergunta se quero alguma coisa e eu digo que não. Mas quero. Quero o peixe daquele homem da mesa do canto. Perto do vidro, colado com o mar. Quero. Mesmo frio. Quero provar, sentir o sabor. O sabor do seu abandono. Frio. Deve ser frio o abandono porque o frio dói mais que o calor e o abandono ainda dói mais do que o frio. Então há de ser frio, gelado. Como as duas pedras que pedi para colocar no suco, porque estou tentando ser religiosa e o álcool não combina com isso. Deve ser gelado como a pedra do meu suco que só está aqui porque abandonei o vinho. Mas prefiro o vinho. Detesto suco. Como detesto este lugar e as paredes de vidro. Então quero. Quero estar no mar. Não a impressão de estar nele. Quero mergulhar, afundar, sentir o sabor das águas misturadas do mar-rio... Pode me levar pra lá?

Severino é uma pessoa que eu admiro. Ontem, ainda ontem, falou com Ana que queria trocar de vida com ela. Ana disse que era louco, que não há nada em sua vida a invejar, mas Severino, ainda assim, pediu à Ana. Me dá tua vida. Ana hesitou. Não cedeu. Mas Severino é de viver mais que ela, faz as coisas, desbrava. Ana é comedida. Severino quer a vida de Ana e Ana não quer dá. Mesmo achando a vida Severino melhor do que a dela. A dela é dela. Severino que cuide da dele. Acho que admiro mais Ana.

O garçom coloca um bilhete em minha mesa. Ana e Severino se afastam. Me descubro no restaurante de vidro. Abro o papel. Uma nota. Um recado. Olho pro homem sentado na mesa perto do mar, mas separado por paredes como eu. Ainda que transparentes. Estamos presos, ele diz. Seus olhos brilham. Agora ele me olha. Eu balanço a cabeça. Ele entende. Que bom que entende. Também peca? Em metáforas? Me oferece quase um sorriso, eu ofereço um ainda menor. Ele acena pro meu prato. Sim, claro. Também deixei esfriar.





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