sábado, 14 de março de 2026

Pé de camomila


Amo quando você me pede pra abrir a porta e deixar a noite entrar na casa. Amo porque também amo a noite e você, com essa cara, pedinte, sonhando com coisas que se misturam. Há coisa mais distante e próxima ao mesmo tempo do que o céu e a terra? Agora, as estrelas parecem quase cair na nossa casa e, você está vendo?, um pouco mais de luz, como eu vejo, agora? O bule está chiando, o chá quase pronto, também amo estrelas e camomila, como acalma, como nos acalma sentir esse vento frio, entrando, convidando e nos fazendo sentar um pouco depois na nossa varanda, as vacas distantes, tolas como nós, perigos na floresta. Eu sempre quis morar perto de uma floresta, com animais silvestres e passarinhos que nunca vou conhecer, que visitam muito cedo e muito antes que eu acorde e você talvez os veja mais do que eu porque acordou cedo ou dormiu tarde e eu quero tomar chá com você e sentir o sabor da camomila em teus lábios e puxar o teu lençol e te ouvir reclamar sobre isso. Ouvir tuas reclamações ainda é melhor do que não ouvi-las. Pequenos momentos que nos fazem saber que existimos. Não tem lua no céu, não importa. Talvez tenha amanhã. Ainda assim, tem o sabor de camomila, hummm. Amo assim, adoçado, você prefere amargo. Quase sempre te ofereço o chá puro, mas algumas, sorrindo, coloco umas pedras de açúcar e você entende. Entende quando brinco. Você gosta das minhas pequenas piadas e ainda dá dois goles no chá, antes de jogar o resto no matinho que cresce fora de casa. E pega o amargo, me faz beber, eu jogo fora depois dos dois goles, sorrindo, no mesmo lugar em que você esvaziou o seu. E viu? Pequenas flores brancas nascendo? Um pé de camomila. 

Peco em metáforas

 O restaurante era claro, agradável. O muro de vidro do chão ao teto, passava a impressão de estarmos no mar. O mar que se misturava um pouco mais adiante com um rio famoso, que cortava a cidade em vários pedaços de lugarejos que poderiam ser ilhas, mas que as pontes aproximavam a ponto de chamarmos de bairros. A ponto de nos sentirmos menos afastados.

Ele descansava a mão na taça, revezava o olhar entre o prato e o horizonte, mas não parecia enxergar nenhum dos dois. Eu, em silêncio, só, aguardando o almoço fora de hora, fiz um brinde aos pensamentos daquele homem. Desejei sabê-los, conhecê-los, cortar os limites que os afastam dos outros. Desvendá-los como nunca e quem sabe assim, dividir os meus. Desejei. Intensamente. Até o meu prato chegar na mesa e trocar, assim, o meu desejo.

Não sou uma mulher má. Mas peco bastante. Peco metaforicamente. Talvez devesse pecar como os outros, com ações, com verdade. Mas peco sempre pedindo perdão por pecar. E assim, os meus pecados não saem. Ficam dentro. Algumas vezes, me enforcam, me pedem, imploram. Mas devoro-os, mastigo-os, engulo. Eu sou a rainha de querer pecar. E assim, peco, como falei antes, em metáforas. E peco bastante. 

O prato do homem esfria. Como não poderia notar? Desde que cheguei a peixada jaz, murcha. E o peixe, já morto, espera que o seu destino se cumpra. Cumpra com uma garfada. Sinto compaixão pelo destino daquele peixe que morreu por nada. E um pouco de raiva daquele homem que desdenha do seu destino. Estou um pouco louca esses dias. Desejo e detesto. E os pensamentos escapam antes que consiga pensar sobre eles. E estão assim, agora.

O garçom pergunta se quero alguma coisa e eu digo que não. Mas quero. Quero o peixe daquele homem da mesa do canto. Perto do vidro, colado com o mar. Quero. Mesmo frio. Quero provar, sentir o sabor. O sabor do seu abandono. Frio. Deve ser frio o abandono porque o frio dói mais que o calor e o abandono ainda dói mais do que o frio. Então há de ser frio, gelado. Como as duas pedras que pedi para colocar no suco, porque estou tentando ser religiosa e o álcool não combina com isso. Deve ser gelado como a pedra do meu suco que só está aqui porque abandonei o vinho. Mas prefiro o vinho. Detesto suco. Como detesto este lugar e as paredes de vidro. Então quero. Quero estar no mar. Não a impressão de estar nele. Quero mergulhar, afundar, sentir o sabor das águas misturadas do mar-rio... Pode me levar pra lá?

Severino é uma pessoa que eu admiro. Ontem, ainda ontem, falou com Ana que queria trocar de vida com ela. Ana disse que era louco, que não há nada em sua vida a invejar, mas Severino, ainda assim, pediu à Ana. Me dá tua vida. Ana hesitou. Não cedeu. Mas Severino é de viver mais que ela, faz as coisas, desbrava. Ana é comedida. Severino quer a vida de Ana e Ana não quer dá. Mesmo achando a vida Severino melhor do que a dela. A dela é dela. Severino que cuide da dele. Acho que admiro mais Ana.

O garçom coloca um bilhete em minha mesa. Ana e Severino se afastam. Me descubro no restaurante de vidro. Abro o papel. Uma nota. Um recado. Olho pro homem sentado na mesa perto do mar, mas separado por paredes como eu. Ainda que transparentes. Estamos presos, ele diz. Seus olhos brilham. Agora ele me olha. Eu balanço a cabeça. Ele entende. Que bom que entende. Também peca? Em metáforas? Me oferece quase um sorriso, eu ofereço um ainda menor. Ele acena pro meu prato. Sim, claro. Também deixei esfriar.





quinta-feira, 12 de março de 2026

Lupa para enxergar as hortênsias (e os enterros dos insetos)

A cigarra está morta no quintal, as perninhas duras, para cima. As asas servindo de manto por baixo do corpo. Não voará amanhã, nem hoje.

Enquanto abro a porta de vidro, nos raros momentos em que encontro intervalos para olhar meu jardim, me pergunto há quanto tempo jaz por aqui, tão perto. Já estaria morta ontem, quando no mesmo horário, pela manhã, escapou-me da vista? Assim como a hortênsia azul que pensei que só abriria em julho? Perdi de salvá-la de algum perigo, como também perdi de admirar a ousadia das flores que decidiram nascer fora da estação? Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?

Se me escapassem as formigas que, em fileiras, organizam-se para recolhê-la, talvez me invadissem outras questões. Mas, por me permitir divagar sobre a vida dos insetos, me sinto viva. Sossego.

Já me falaram que cigarras morrem depois que acasalam e que formigas fazem banquetes com o que encontram no caminho. Não são criteriosas as formigas ou, se o são, possuem a lógica dos próprios critérios. Vejo-as — por que não? — vejo-as seguindo, ao meu olhar, determinadas.

Não desviam as formigas. Não se separam no caminho, não desistem. Seguem para recolher a cigarra, sem saber que, daqui a uns dois minutos, recolherei o inseto antes. Colocarei a carcaça em um saco, fecharei sem um segundo olhar e o levarei para um lugar onde não a alcançarão. 

E, no intervalo entre o futuro lamento das formigas e o meu, por todos os cantos interrompidos, me pergunto há quanto tempo. Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?