sábado, 21 de fevereiro de 2026

Havia o nada

Se eu não carregasse pastas, notebooks, livros, quando caísse, ouviriam apenas o estrondo do meu corpo batendo no chão. Os materiais continuariam intactos e eu gritaria um viva pela integridade deles a despeito da minha.

Ela subiu a escada, a saia preta batendo nas pernas, o sapato vermelho aparecendo e desaparecendo com o movimento. Estava bonita, as olheiras marcavam os olhos, sem disfarces, mas havia os cabelos em coque, uma franja fugidia no rosto, os óculos contrastando com sua pele pálida, assim como a roupa, escura. Sua assinatura.

O prédio era velho. Sentiu que deveriam deixá-lo descansar.  As paredes estavam pintadas de um bege, que poderia ser branco. As tábuas de madeira reclamavam, incomodadas, com os movimentos noturnos. Assim como as pessoas que se arrastavam por elas, procurando café. Não havia café. Um pingo sequer para curar o que cura o café. Não havia.

Ao passar pelos quadros nos corredores, uma voz do passado, a estimulou a olhar para o alto. Um padre morto devolveu-lhe o olhar. Severo, disciplinador. Um olhar eterno para os passantes, imortalizado em tinta óleo. Havia coisas mais interessantes para se pintar, mas era o padre que ocupava o corredor. A pintura grande de doer o pescoço. Encarou por pouco tempo. Mas não sentiu os tremores.

Se não fosse o acidente há uns dez anos atrás, sofreria de medo e coisas afins. Assombrações quase pediam para serem encontradas pelos corredores longos e por trás das portas de madeira que rangiam, especialmente quando todos já haviam abandonado as salas e se dirigiam para uma sexta quase no fim. 

Algumas vezes, permanecia na sala, a porta de madeira desafiando-a a ir embora em seus movimentos e rangidos fantasmagóricos. Outras, recolhia os materiais e saía para os corredores, dando boa noite para os docentes que ainda esperavam o horário de bater o ponto. Juntos, compartilhavam tanto a sensação de dever cumprido, quanto o desejo de ir embora.

Quase nunca tinha vontade de trocar ideias. Se fosse possível trocar pensamentos, seria mais apropriado, a contar que os seus, invadiam —  sempre — em demasia. Trocaria a agonia inerte, a apatia que carregava junto com as pastas que abraçava nos braços, a letargia. Possivelmente receberia algo. Possivelmente.

Se não fosse o acidente...

Esta noite, dirigiu-se à janela da sala. O barulho dos saltos invadindo o silêncio. A praça na frente não inspirava beleza. Talvez descuido, talvez maus tratos. Talvez algo que não enxergava além das sombras. E embora o céu também não inspirasse poemas naquele dia, permaneceu com a noite, a olhar o que não podia ver, deixando-se respirar o que se pode.

Não havia perfume. Não havia beleza. Não havia som, música, sequer uma nota. Não havia estrelas ou lua. Árvores sim, mas não havia vento para embalá-las, fazê-las dançar com o movimento, desafiá-las a manterem-se em pé. Não havia raios, nem sequer ameaças de chuvas. Talvez se a tempestade descesse, uma tromba de água, mesmo que rápida, mesmo que passageira... mas a noite era silêncio e só. Mais uma. Apenas mais uma.


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A perna

 É só uma perna quebrada, uma perna. Ossos que, esfacelados, tratados e cuidados, voltarão ao normal. É possível. Só uma perna quebrada, engessada até a coxa. Quando se é jovem, a recuperação é rápida. Um ano ou um pouco mais.

 É só uma perna… A mulher passa com o bebê, enquanto ele está sentado na sala. A televisão obedece às mudanças repentinas de canais. Frases são interrompidas na tela antes mesmo de iniciarem. O bebê chora no quarto — ou talvez no banheiro. A mulher grita algo. O bebê chora mais alto. É só uma perna.

 Talvez volte a andar em um ano. Jogar, não sei. Ainda é cedo para dizer. Talvez sim. Poderia ter sido pior. Mas foi só a perna. Precisa ver a moto. Quantos não tiveram chance nem de chorar por ossos quebrados?

 A porta da cozinha abre. Um cheiro de bolo. Cheiro da mãe. Everaldo! É Saúva, mãe! Tem bolo, Everaldo! Saúva está na TV, dona Isadora. De novo? E ele sai de lá? E o Jorge? Tá bem, mas chora muito. Depois passa, minha filha. Everaldo era assim. Até os cinco anos, se eu me afastasse um pouquinho, abria o berreiro.

— É Saúva, mãe — diz, encostando na porta da cozinha.

— Ah, levantou? Pensei que estava com a cadeira colada no couro. Não sai de lá para nada. Já soube que teve um filho?

— Que é isso, mulher. Veio fazer intriga?

— Intriga… Vim trazer bolo, isso sim. Quando eu vier para fazer intriga, você vai saber. E mulher é a tua, eu sou tua mãe.

— Eu sei, mãe. É que a senhora já chega falando do Jorginho.

— Falo sim. Falo mesmo. O tempo passa rápido e, se continuar sentado ali, quando for pegar o filho na escola, vai confundir com outro. Como teu pai.

— Eu já sou mais pai do Jorge do que ele foi para mim e para Ana.

— É sim, filho. E tem muito chão para continuar sendo. Venha. É de coco.

— A senhora sempre faz de coco, o preferido dele, nunca o meu — fala a irmã, entrando na casa. 

— Apareceu, Ana? Venha cá. Cadê meu cheiro?

— Tome, dona Ína. Nem sabe qual é o bolo que eu gosto, né?

— Deixe de história. Estava jogando? De novo?

— Estava. Ele não pode, mas eu posso — fala, apontando para o irmão. — Dizem que tem olheiro hoje.

— Se dizem, é porque não tem. Disseram foi para tu jogar bola. Deve estar preguiçosa — ele corta.

— Preguiçosa… Não sou eu que passo o dia sentado, apertando botão.

— Parem os dois. Não vão me dar sossego nem velhos? Estou cansada de ouvir vocês discutindo. Dois irmãos, gente.

— Tem que jogar bola sempre. Não importa se tem homem olhando ou não — ele continua, como se não estivesse escutando ninguém.

— E eu me importo com homem? Eu sou mulher de me importar com homem, Saúva? — indaga a irmã.

— Parem! Tem bolo, gente. Vamos sentar? Vamos sentar para comer agora? Os dois? — interrompe a mãe — Márcia, tem café?

— Vou fazer, dona Ína. Segura o Jorge.

 A mulher entrega o bebê a ele.

 O filho em um braço, a bengala no outro. A mãe aponta a cadeira. Ele tenta sentar. Não é fácil. O menino agarra a camisa do pai, talvez não se sinta seguro. Talvez ache que vai cair. Ele também. Cair e derrubar o filho. Na frente da mãe, da mulher, da irmã, de quem mais entrar pela porta pra ver sua desgraça. É só uma perna. Um diabo que é só uma perna. Quem mais vai entrar? Quem? 

 Até a irmã ficou calada. Por pouco tempo.

 — Me dá o Jorge, Saúva — ela se aproxima.

 — Não. Eu cuido dele — aperta o filho no braço.

 — Eu seguro enquanto você senta.

 — Vai pra porra, Ana. Eu consigo.

 — Não fala palavrão na frente dele — intervém sua mulher.

 — Você acha que ele entende, Márcia? É um gênio?

 — Ele não entende, mas ele sente. Não quero que ele sinta coisas ruins. Olha aqui o café. Me dá o Jorge.

 — Eu quero ficar com ele, Márcia.

 — Saúva, me dá o Jorge.

 — Eu não posso ficar com meu filho?

 — Ela só vai trocar o menino, filho — diz a mãe.

 — Vocês acham que eu vou derrubar o Jorginho, né? Né isso? — grita, encarando as três, a bengala trêmula na mão, a criança bamba no braço.

 O menino começa a chorar.

 — Pronto, agora ele está chorando. Demorei quase um dia para acalmar e agora de novo — lamenta Márcia.

 — Calma, minha filha. Everaldo, venha cá. Pronto, me dê o Jorginho. Isso. Shhhh. Está tudo bem. Tudo bem, meu menino. Isso. Assim. Tudo bem. Agora coma o bolo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Porto Ferido

Haja gritos silenciosos de humilhação e olhares vazios para entender que aqui não é o meu lugar. 

Tenho em Recife o meu porto, meu espaço seguro, minhas raízes. Tenho, nessa cidade - meio velha, meio nova - o meu último suspiro romântico, minhas intenções boêmias, minha alma, a que ainda cultivo e guardo, como se fosse possível. 

Hoje, depois de dez dias percorrendo lugares que amo, trocando passos com meus conterrâneos, ensaiando diálogos, interrompidos pelo sopro líquido da contemporaneidade - um sopro brusco, um sopro bruto, dissolvido em intenções monetárias a cada passo, um ritmo de vida frenético, relações de emprego inseguras e metas extraordinárias a cumprir; percorrendo os corredores de uma megalópole em construção, arranha-céus ao inalcance dos olhos, desvios para instalações de intenções corporativas, me sinto sufocada, me sinto oprimida. Adoeço. 

Tudo é shopping na cidade que amo. O respiro é lucro, a violência se justifica com "sempre fui bom para você, mas vaza do meu negócio". A humanidade do viciado que já foi um menino, onde está? Onde está?

Ah, são tantas as perguntas que me faço. Percorri três quilômetros de esperança, visitei lugares amados, queridos, perpétuos nos meus amores, nos meus sonhos, nas minhas viagens de alma. A queda foi estúpida, não estava preparada. 

Estou triste, Recife. Me sinto abandonada. 

E eu estou falando de você, mas poderia substituir teu nome por lugares em que a crueza e frieza da linha do novo, estejam transformando em grandes.

Grandes para quem? Grandes por quê? 

Talvez não seja você que me doa. Talvez seja o tempo. Um tempo em que a minha filha terá que compreender para sobreviver. Um tempo mais dela do que meu. Eu tomaria as preocupações dela, todas, se pudesse. Eu engoliria os céus cinzentos e as decepções. E o que me resta, já que não ignoro o que não me cabe? Desejar? Desejar que melhore? 

Visto tuas cores, amado lugar, sinto tuas ruas, tua cultura, tuas pessoas, enquanto derramo essas linhas e lamento. Há em mim culpa, dor e esperança. E, nem assim, menos amor. Nunca. 

O que faz doer mais.