quarta-feira, 29 de julho de 2026
Um novo segredo antigo e árvores que balançam sem vento
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Dente de ouro
Há um pirata na casa ao lado da minha. Ele vive silencioso, quieto, talvez à espera, talvez planejando. Não, não é invenção. Há um pirata. Daqueles de um olho só, faixa atravessada no esquerdo, perna de pau, barba a chegar nos pés. Dente de ouro.
Minha mãe falou pra não me aproximar dos muros da casa. Segundo ela, ratos, escorpiões e baratas são a verdadeira ameaça. Disse, como para que eu não pudesse contestar, Se for até lá, uma semana sem televisão.
Eu adoro televisão e a minha mãe. Não sou de fazer arte ou desobedecer. Claro, não vamos contar as vezes em que a curiosidade ultrapassa algumas regras. Sou criança, é típico. Crianças sempre querem saber mais.
O que acontece é que hoje, enquanto ela trabalhava na sala, o computador grudado nos olhos, falei que ia beber água e corri pro quintal dos fundos. Não corri de verdade, sabe? Fui devagarzinho, passinhos rasteiros, silenciosos, quase como flutuasse. O que correu foi o coração. A expectativa.
Grudei o ouvido na parede, espiei pelo buraquinho que encontrei no muro, olhei antes para todos os lados para ver se tinha escorpião, e esperei. Esperei o que pareceram horas. Naquele dia não achei nada além de um quintal sujo e ansiedade. Um nome que aprendi para nomear isso aqui, que me fez escrever agora. Contar os minutos pro amanhã. E escapar de novo.
Dessa vez, ela estava no telefone. Minha mãe é home office. Uma profissão que entendo como algo que não tem horário do dia pra acabar. Se estamos almoçando e o telefone toca, ela sai da mesa. Uma noite acordei para beber água e a luz do computador estava acesa no quarto ao lado do meu.
Eu esperei que ela pegasse o papel e anotasse coisas que o trabalho pede e corri daquele jeito que vocês já conhecem — meio flutuante, meio apressada. O pirata não apareceu mais uma vez. Ainda tentei procurar algo além das plantas que tomavam tudo, quase invadindo nossa casa. Acho que vi uma pá. Sonhei com um baú de tesouros.
Meu nome é Amália. Eu não gosto dele. Minha mãe diz que é lindo, mas meus amigos não entendem assim. Amada, Ama, eu gosto quando me chamam de Lia. Decidi assinar Lia nas tarefas de casa e os professores me pediram para completar. Será que não entendem? Não é a gente que deveria escolher quem é?
Demorou bastante para conseguir ir ao quintal dessa vez. Depois de um choro de quase um dia da minha mãe, descobri que o homeoffice tinha acabado e que agora sua nova profissão era desempregada. Não entendi por que se preocupava, agora tínhamos mais tempo. Logo, fui vendo que não comprávamos mais o requeijão que eu mais gostava e diminuíamos outras coisas. Vamos nos mudar, Amália. Pra casa da vovó. Teremos que nos desfazer de algumas coisas, sabe? Lá é menorzinho que aqui. Vamos doar alguns brinquedos.
Eu não sabia se gostava menos do homeoffice ou do desemprego. Encaixotar era chato, por mais que gostasse da vovó. Resolvi doar a Lia, minha boneca que era Lia mesmo. Não dormia mais com ela há algum tempo. Mas naquela noite, nos despedimos abraçadas.
Minha mãe estava cuidando da mudança e ajudando a colocar as coisas no caminhão, quando corri — corri mesmo — pro muro da casa. Minha surpresa foi tão grande que Lia que estava em meus abraços caiu no chão.
O quintal estava limpo e um homem, de costas, cavava algo no que agora parecia um jardim. Não consegui enxergar a perna da direita — deveria ser a de pau, mas a barba era grande e quando se virou, pulei pra trás com o susto. Não vi a perna direita, mas vi o brilho de um sorriso de ouro.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
Não voe
Voar. Voar é um movimento. Criar asas, penas. Fazer-se pássaro. Abrir os novos membros, aceitar o novo corpo, acreditar no impossível quando sempre te disseram não. Não voe.
Voar pode ser um direito. Um escape, um delírio. Mas ela não encontrava tempo pra escapar. Antes das cinco, deixava o café pronto em casa e montava na cinquentinha com o companheiro para, às seis, deixar pronto o café dos outros. O filho ficava em casa. Ajeitava as cobertas, soltava um beijo. Deus abençoe.
Já disseram que poderia ser presa. Abandonar o filho assim. Mas, com menos idade que o menino, já ajeitava o pasto. Arrancava cana. Derrubava terra. O filho, com oito, ia pra escola. O ônibus a doze quilômetros da porta. Era levantar e correr. Levar o café pronto que tinha na mesa, se não acordasse a tempo de comer em casa. A farda estendida na cabeceira da cama. A cama com colchão. Que bom que o filho podia ter uma vida diferente da dela.
Enquanto os movimentos dos outros aconteciam ao seu redor, a vida se organizando em oportunidades pra alguns, ela lavava a roupa, ajeitava a comida, faxinava os espaços até as beiras, passava a roupa de todos, enquanto, com a mão, arrumava a dela. A casa não era grande. Mas, de seis às seis, não dá tempo de fazer tudo. Quando fechou o último pacote de lixo e esperou o marido na porta dos patrões, lembrou que tinha tarefa da escola pra fazer. Abriu o celular. Uma redação. Sobre a cidade.
Enquanto passavam de motoca, observava, ligeiro, o que poderia ter escrito. A cidade fechando as portas, os últimos funcionários do comércio respirando o primeiro ar do dia. As fardas coloridas das lojas, que agora conseguia ler os nomes. E escrever sobre elas. Os pais morreram sem saber; o filho aprendeu antes dela.
A praça acendia. Bonita. As estrelas despontando acima dela. Tão opacas ali, competindo com as luzes artificiais. Satisfeitos com o que está embaixo, poucos olham pro céu. A cidade. Uma cidade que brilha, mas que não enxerga as estrelas.
O filho estava sentado perto da porta quando chegou. Um ioiô na mão.
— Mãe, olhe o que ganhei!
Ela sorri pro menino. Talvez o primeiro sorriso do dia.
— Jantou?
— O pai ajeitou o cuscuz.
— E as tarefas?
O menino não responde. O ioiô sobe, desce.
— Olha isso, mãe!
Ela sabe que não fez. Senta com ele, o céu à frente. No campo, as estrelas é que brilham. Alisa os braços.
— Tá frio, não tá? Vamos entrar?
— Quero ficar um pouquinho.
— Quem te deu isso?
— A professora trouxe um sacão, todo mundo ganhou um. Pergunta pro Zito. O dele é azul.
— O seu também.
— Mas o meu azul é mais bonito.
Voar. Voar como um direito de escapar. Talvez o primeiro sorriso do dia. Talvez o último. Talvez concordar com o filho, alisar os cabelos, beijar o topo da cabeça.
— Sim, filho. É. Posso tentar?
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Luana e a gravidade
Ela era tão bonita. Tinha olhos pequenos e dentes certinhos, como uma régua. Quando sorria, um furo no rosto aparecia. Dizem ser uma atrofia, as barrocas. Mas o certo é que combinam com algumas pessoas. As dela combinavam com ela.
Luana. Um nome etéreo. Sim, não imaginam uma Luana comum, imaginam? Uma metódica e disciplinada. Não. Há de existirem Luanas assim — perdoem as generalizações —, mas, quando penso em Luana, penso nela. E ela é das que o nome combina. Então, ser Luana é como ser extraterrena, além das convenções. Mais de rupturas do que de remendos. Luana que bagunça a sala enquanto senta no chão, mesmo tendo um sofá para sentar. Luana que traz bolo. De ameixa. Ainda que você não goste.
Um dia, não faz muito tempo, estávamos as duas a experimentar uns vestidos. Eu pus o rosa. Luana, adivinha? Escolheu um laranja. Há de aparecer, não, Luana? Aproveitar-se das pequenas deixas para mostrar-se inteira? Luana sabia. Uma mulher não deve se esconder. Ainda que com atrofias. Uma mulher, uma mulher... uma mulher precisa de várias coisas, mas primeiro de espaço. Para ser. Luana sabia. Luana é. Luana foi.
Meus medos e receios, contei todos a ela. Escutava, sim. Não parecia muito atenta — o nome não ajudava. Mas vinha com um conselho ou com uma mão sobre a minha. Dizia-me, com os olhos, coisas que as palavras não alcançavam. Sim, ainda agora estou tentando buscá-las. Digo, as palavras. Tão boas, mas tão poucas. Há de sempre precisar inventar mais. Luana tinha os gestos e eles também falavam. Luana olhava para o alto quando não sabia o que dizer. E eu a acompanhava. Ficávamos as duas voltadas para o além. E, em alguns dias, isso curava tudo.
Me curava. Curava Luana? A calça jeans apertada, a blusa amarrada com um nó caindo pelas pernas cruzadas, a expressão fechada... se não fossem as barrocas, nada denunciava que sorria. E eu, tão perto, não conseguia fechar os olhos, não conseguia escapar...
Talvez seja o meu nome. Raísa. Como que enraizada, como que impregnada de terra. Me curo ao olhar para o alto, mas me perco tão pouco nos espaços em que não toco. Já se perguntou? Por que a Terra precisa da Lua? Dizem que é para movimentar o oceano; dizem que é para possibilitar as marés. E a Lua, por outro lado, é inteira sem a Terra. Mas vagaria. Perder-se-ia pelo espaço. A gravidade da Terra segura a Lua, não permite que parta. E, enquanto não me perco o suficiente para sorrir — ou ter barrocas —, me pergunto o que é salvação, o que é prisão. Já Luana não pergunta. Entrega ao universo as respostas.
domingo, 15 de março de 2026
Quando você para de se movimentar e não está em busca de novos meios e maneiras para buscar esse movimento, muito provavelmente está morto. Morto, de certa forma, embora vivo. É o que me faz buscar aplicar técnicas diferentes, ler livros com estruturas fora do comum, escrever pelo avesso. A ousadia não me é particular como pessoa. Penso muito, a consciência pesa, o filtro perpassa por quase tudo. Então, ao me conceder essas experimentações na escrita, me concedo um pouco o que eu não tenho, para além dela. O fluxo de consciência é uma busca, aparentemente, recente, mas é uma busca que aparece lá. Lá atrás. Embora a intensidade do interesse tenha ocorrido quando descobri um nome pra ele. Por que tenho facilidade de escrever? Em qualquer lugar, espaço e contexto? Eu deixo que a escrita aconteça. É um dos meus poucos luxos totalmente livres. Aqui está ela, acontecendo. Não a controlo, não filtro, nunca sei aonde vai chegar. Aqui está ela e é isso. Apenas isso. Que bom.
sábado, 14 de março de 2026
Pé de camomila
Peco em metáforas
O restaurante era claro, agradável. O muro de vidro do chão ao teto, passava a impressão de estarmos no mar. O mar que se misturava um pouco mais adiante com um rio famoso, que cortava a cidade em vários pedaços de lugarejos que poderiam ser ilhas, mas que as pontes aproximavam a ponto de chamarmos de bairros. A ponto de nos sentirmos menos afastados.
Ele descansava a mão na taça, revezava o olhar entre o prato e o horizonte, mas não parecia enxergar nenhum dos dois. Eu, em silêncio, só, aguardando o almoço fora de hora, fiz um brinde aos pensamentos daquele homem. Desejei sabê-los, conhecê-los, cortar os limites que os afastam dos outros. Desvendá-los como nunca e quem sabe assim, dividir os meus. Desejei. Intensamente. Até o meu prato chegar na mesa e trocar, assim, o meu desejo.
Não sou uma mulher má. Mas peco bastante. Peco metaforicamente. Talvez devesse pecar como os outros. Mas peco sempre pedindo perdão por pecar. E assim, os meus pecados não saem. Ficam dentro. Algumas vezes, me enforcam, me pedem, imploram. Mas devoro-os, mastigo-os, engulo. Eu sou a rainha de querer pecar. E assim, peco, como falei antes, em metáforas. E peco bastante.
O prato do homem esfria. Como não poderia notar? Desde que cheguei a peixada jaz, murcha. E o peixe, já morto, espera que o seu destino se cumpra. Cumpra com uma garfada. Sinto compaixão pelo destino daquele peixe que morreu por nada. E um pouco de raiva daquele homem que desdenha do seu destino. Estou um pouco louca esses dias. Desejo e detesto. E os pensamentos escapam antes que consiga pensar sobre eles. E estão assim, agora.
O garçom pergunta se quero alguma coisa e eu digo que não. Mas quero. Quero o peixe daquele homem da mesa do canto. Perto do vidro, colado com o mar. Quero. Mesmo frio. Quero provar, sentir o sabor. O sabor do seu abandono. Frio. Deve ser frio o abandono porque o frio dói mais que o calor e o abandono ainda dói mais do que o frio. Então há de ser frio, gelado. Como as duas pedras que pedi para colocar no suco, porque estou tentando ser religiosa e o álcool não combina com isso. Deve ser gelado como a pedra do meu suco que só está aqui porque abandonei o vinho. Mas prefiro o vinho. Detesto suco. Como detesto este lugar e as paredes de vidro. Então quero. Quero estar no mar. Não a impressão de estar nele. Quero mergulhar, afundar, sentir o sabor das águas misturadas do mar-rio... Pode me levar pra lá?
Severino é uma pessoa que eu admiro. Ontem, ainda ontem, falou com Ana que queria trocar de vida com ela. Ana disse que era louco, que não há nada em sua vida a invejar, mas Severino, ainda assim, pediu à Ana. Me dá tua vida. Ana hesitou. Não cedeu. Mas Severino é de viver mais que ela, faz as coisas, desbrava. Ana é comedida. Severino quer a vida de Ana e Ana não quer dá. Mesmo achando a vida Severino melhor do que a dela. A dela é dela. Severino que cuide da dele. Acho que admiro mais Ana.
O garçom coloca um bilhete em minha mesa. Ana e Severino se afastam. Me descubro no restaurante de vidro. Abro o papel. Uma nota. Um recado. Olho pro homem sentado na mesa perto do mar, mas separado por paredes como eu. Ainda que transparentes. Estamos presos, ele diz. Seus olhos brilham. Agora ele me olha. Eu balanço a cabeça. Ele entende. Que bom que entende. Também peca? Em metáforas? Me oferece quase um sorriso, eu ofereço um ainda menor. Ele acena pro meu prato. Sim, claro. Também deixei esfriar.
quinta-feira, 12 de março de 2026
Lupa para enxergar as hortênsias (e os enterros dos insetos)
A cigarra está morta no quintal, as perninhas duras, para cima. As asas servindo de manto por baixo do corpo. Não voará amanhã, nem hoje.
Enquanto abro a porta de vidro, nos raros momentos em que encontro intervalos para olhar meu jardim, me pergunto há quanto tempo jaz por aqui, tão perto. Já estaria morta ontem, quando no mesmo horário, pela manhã, escapou-me da vista? Assim como a hortênsia azul que pensei que só abriria em julho? Perdi de salvá-la de algum perigo, como também perdi de admirar a ousadia das flores que decidiram nascer fora da estação? Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?
Se me escapassem as formigas que, em fileiras, organizam-se para recolhê-la, talvez me invadissem outras questões. Mas, por me permitir divagar sobre a vida dos insetos, me sinto viva. Sossego.
Já me falaram que cigarras morrem depois que acasalam e que formigas fazem banquetes com o que encontram no caminho. Não são criteriosas as formigas ou, se o são, possuem a lógica dos próprios critérios. Vejo-as — por que não? — vejo-as seguindo, ao meu olhar, determinadas.
Não desviam as formigas. Não se separam no caminho, não desistem. Seguem para recolher a cigarra, sem saber que, daqui a uns dois minutos, recolherei o inseto antes. Colocarei a carcaça em um saco, fecharei sem um segundo olhar e o levarei para um lugar onde não a alcançarão.
E, no intervalo entre o futuro lamento das formigas e o meu, por todos os cantos interrompidos, me pergunto há quanto tempo. Há quanto tempo jaz aqui, tão perto?
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Havia o nada
Se eu não carregasse pastas, notebooks, livros, quando caísse, ouviriam apenas o estrondo do meu corpo batendo no chão. Os materiais continuariam intactos e eu gritaria um viva pela integridade deles a despeito da minha.
Ela subiu a escada, a saia preta batendo nas pernas, o sapato vermelho aparecendo e desaparecendo com o movimento. Estava bonita, as olheiras marcavam os olhos, sem disfarces, mas havia os cabelos em coque, uma franja fugidia no rosto, os óculos contrastando com sua pele pálida, assim como a roupa, escura. Sua assinatura.
O prédio era velho. Sentiu que deveriam deixá-lo descansar. As paredes estavam pintadas de um bege, que poderia ser branco. As tábuas de madeira reclamavam, incomodadas, com os movimentos noturnos. Assim como as pessoas que se arrastavam por elas, procurando café. Não havia café. Um pingo sequer para curar o que cura o café. Não havia.
Ao passar pelos quadros nos corredores, uma voz do passado, a estimulou a olhar para o alto. Um padre morto devolveu-lhe o olhar. Severo, disciplinador. Um olhar eterno para os passantes, imortalizado em tinta óleo. Havia coisas mais interessantes para se pintar, mas era o padre que ocupava o corredor. A pintura grande de doer o pescoço. Encarou por pouco tempo. Mas não sentiu os tremores.
Se não fosse o acidente há uns dez anos atrás, sofreria de medo e coisas afins. Assombrações quase pediam para serem encontradas pelos corredores longos e por trás das portas de madeira que rangiam, especialmente quando todos já haviam abandonado as salas e se dirigiam para uma sexta quase no fim.
Algumas vezes, permanecia na sala, a porta de madeira desafiando-a a ir embora em seus movimentos e rangidos fantasmagóricos. Outras, recolhia os materiais e saía para os corredores, dando boa noite para os docentes que ainda esperavam o horário de bater o ponto. Juntos, compartilhavam tanto a sensação de dever cumprido, quanto o desejo de ir embora.
Quase nunca tinha vontade de trocar ideias. Se fosse possível trocar pensamentos, seria mais apropriado, a contar que os seus, invadiam — sempre — em demasia. Trocaria a agonia inerte, a apatia que carregava junto com as pastas que abraçava nos braços, a letargia. Possivelmente receberia algo. Possivelmente.
Se não fosse o acidente...
Esta noite, dirigiu-se à janela da sala. O barulho dos saltos invadindo o silêncio. A praça na frente não inspirava beleza. Talvez descuido, talvez maus tratos. Talvez algo que não enxergava além das sombras. E embora o céu também não inspirasse poemas naquele dia, permaneceu com a noite, a olhar o que não podia ver, deixando-se respirar o que se pode.
Não havia perfume. Não havia beleza. Não havia som, música, sequer uma nota. Não havia estrelas ou lua. Árvores sim, mas não havia vento para embalá-las, fazê-las dançar com o movimento, desafiá-las a manterem-se em pé. Não havia raios, nem sequer ameaças de chuvas. Talvez se a tempestade descesse, uma tromba de água, mesmo que rápida, mesmo que passageira... mas a noite era silêncio e só. Mais uma. Apenas mais uma.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A perna
É só uma perna quebrada, uma perna. Ossos que, esfacelados, tratados e cuidados, voltarão ao normal. É possível. Só uma perna quebrada, engessada até a coxa. Quando se é jovem, a recuperação é rápida. Um ano ou um pouco mais.
É só uma perna… A mulher passa com o bebê, enquanto ele está sentado na sala. A televisão obedece às mudanças repentinas de canais. Frases são interrompidas na tela antes mesmo de iniciarem. O bebê chora no quarto — ou talvez no banheiro. A mulher grita algo. O bebê chora mais alto. É só uma perna.
Talvez volte a andar em um ano. Jogar, não sei. Ainda é cedo para dizer. Talvez sim. Poderia ter sido pior. Mas foi só a perna. Precisa ver a moto. Quantos não tiveram chance nem de chorar por ossos quebrados?
A porta da cozinha abre. Um cheiro de bolo. Cheiro da mãe. Everaldo! É Saúva, mãe! Tem bolo, Everaldo! Saúva está na TV, dona Isadora. De novo? E ele sai de lá? E o Jorge? Tá bem, mas chora muito. Depois passa, minha filha. Everaldo era assim. Até os cinco anos, se eu me afastasse um pouquinho, abria o berreiro.
— É Saúva, mãe — diz, encostando na porta da cozinha.
— Ah, levantou? Pensei que estava com a cadeira colada no couro. Não sai de lá para nada. Já soube que teve um filho?
— Que é isso, mulher. Veio fazer intriga?
— Intriga… Vim trazer bolo, isso sim. Quando eu vier para fazer intriga, você vai saber. E mulher é a tua, eu sou tua mãe.
— Eu sei, mãe. É que a senhora já chega falando do Jorginho.
— Falo sim. Falo mesmo. O tempo passa rápido e, se continuar sentado ali, quando for pegar o filho na escola, vai confundir com outro. Como teu pai.
— Eu já sou mais pai do Jorge do que ele foi para mim e para Ana.
— É sim, filho. E tem muito chão para continuar sendo. Venha. É de coco.
— A senhora sempre faz de coco, o preferido dele, nunca o meu — fala a irmã, entrando na casa.
— Apareceu, Ana? Venha cá. Cadê meu cheiro?
— Tome, dona Ína. Nem sabe qual é o bolo que eu gosto, né?
— Deixe de história. Estava jogando? De novo?
— Estava. Ele não pode, mas eu posso — fala, apontando para o irmão. — Dizem que tem olheiro hoje.
— Se dizem, é porque não tem. Disseram foi para tu jogar bola. Deve estar preguiçosa — ele corta.
— Preguiçosa… Não sou eu que passo o dia sentado, apertando botão.
— Parem os dois. Não vão me dar sossego nem velhos? Estou cansada de ouvir vocês discutindo. Dois irmãos, gente.
— Tem que jogar bola sempre. Não importa se tem homem olhando ou não — ele continua, como se não estivesse escutando ninguém.
— E eu me importo com homem? Eu sou mulher de me importar com homem, Saúva? — indaga a irmã.
— Parem! Tem bolo, gente. Vamos sentar? Vamos sentar para comer agora? Os dois? — interrompe a mãe — Márcia, tem café?
— Vou fazer, dona Ína. Segura o Jorge.
A mulher entrega o bebê a ele.
O filho em um braço, a bengala no outro. A mãe aponta a cadeira. Ele tenta sentar. Não é fácil. O menino agarra a camisa do pai, talvez não se sinta seguro. Talvez ache que vai cair. Ele também. Cair e derrubar o filho. Na frente da mãe, da mulher, da irmã, de quem mais entrar pela porta pra ver sua desgraça. É só uma perna. Um diabo que é só uma perna. Quem mais vai entrar? Quem?
Até a irmã ficou calada. Por pouco tempo.
— Me dá o Jorge, Saúva — ela se aproxima.
— Não. Eu cuido dele — aperta o filho no braço.
— Eu seguro enquanto você senta.
— Vai pra porra, Ana. Eu consigo.
— Não fala palavrão na frente dele — intervém sua mulher.
— Você acha que ele entende, Márcia? É um gênio?
— Ele não entende, mas ele sente. Não quero que ele sinta coisas ruins. Olha aqui o café. Me dá o Jorge.
— Eu quero ficar com ele, Márcia.
— Saúva, me dá o Jorge.
— Eu não posso ficar com meu filho?
— Ela só vai trocar o menino, filho — diz a mãe.
— Vocês acham que eu vou derrubar o Jorginho, né? Né isso? — grita, encarando as três, a bengala trêmula na mão, a criança bamba no braço.
O menino começa a chorar.
— Pronto, agora ele está chorando. Demorei quase um dia para acalmar e agora de novo — lamenta Márcia.
— Calma, minha filha. Everaldo, venha cá. Pronto, me dê o Jorginho. Isso. Shhhh. Está tudo bem. Tudo bem, meu menino. Isso. Assim. Tudo bem. Agora coma o bolo.
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
Porto Ferido
Haja gritos silenciosos de humilhação e olhares vazios para entender que aqui não é o meu lugar.
Tenho em Recife o meu porto, meu espaço seguro, minhas raízes. Tenho, nessa cidade - meio velha, meio nova - o meu último suspiro romântico, minhas intenções boêmias, minha alma, a que ainda cultivo e guardo, como se fosse possível.
Hoje, depois de dez dias percorrendo lugares que amo, trocando passos com meus conterrâneos, ensaiando diálogos, interrompidos pelo sopro líquido da contemporaneidade - um sopro brusco, um sopro bruto, dissolvido em intenções monetárias a cada passo, um ritmo de vida frenético, relações de emprego inseguras e metas extraordinárias a cumprir; percorrendo os corredores de uma megalópole em construção, arranha-céus ao inalcance dos olhos, desvios para instalações de intenções corporativas, me sinto sufocada, me sinto oprimida. Adoeço.
Tudo é shopping na cidade que amo. O respiro é lucro, a violência se justifica com "sempre fui bom para você, mas vaza do meu negócio". A humanidade do viciado que já foi um menino, onde está? Onde está?
Ah, são tantas as perguntas que me faço. Percorri três quilômetros de esperança, visitei lugares amados, queridos, perpétuos nos meus amores, nos meus sonhos, nas minhas viagens de alma. A queda foi estúpida, não estava preparada.
Estou triste, Recife. Me sinto abandonada.
E eu estou falando de você, mas poderia substituir teu nome por lugares em que a crueza e frieza da linha do novo, estejam transformando em grandes.
Grandes para quem? Grandes por quê?
Talvez não seja você que me doa. Talvez seja o tempo. Um tempo em que a minha filha terá que compreender para sobreviver. Um tempo mais dela do que meu. Eu tomaria as preocupações dela, todas, se pudesse. Eu engoliria os céus cinzentos e as decepções. E o que me resta, já que não ignoro o que não me cabe? Desejar? Desejar que melhore?
Visto tuas cores, amado lugar, sinto tuas ruas, tua cultura, tuas pessoas, enquanto derramo essas linhas e lamento. Há em mim culpa, dor e esperança. E, nem assim, menos amor. Nunca.
O que faz doer mais.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Vinte minutos e um vídeo de mil novecentos e oitenta e oito
Em um edifício, há alguns andares que estruturam a base. Colunas de constituição, gênesis. Um andar, outro andar, uma escada no caminho, uma atalho pelo elevador, saídas de incêndio, minha casa, sala, quarto, a janela, o alicerce que me permite aqui.
Da janela em que estou agora, olho para o céu, o limpo céu da minha cidade. Uma cidade que ainda respira. Sinto o ar, vejo a palmeira à distância, a dança das longas folhas que acompanham a valsa da brisa, os pássaros que voam mais alto, os que não ousam tanto, as pessoas que caminham como formigas perdidas no tumulto do mundo. É terça feira, um dia como o outro. Estou em pausa das obrigações, estou sozinha. Disparei o despertador para tocar em vinte e nos vinte, bem. Nos vinte, vivo o que me permitem os intervalos.
Eu não sei para onde caminham estas linhas, embora o primeiro movimento sempre seja como as bases, as colunas: estruturantes. Droga, fui interrompida pela realidade através de uma ligação. Vinte minutos menos sete. Tenho treze agora. É assim. Horário de trabalho.
Eu queria continuar o texto de forma poética, mas o amargo insiste. Insiste em apagar. Ah, que seja. Eis o real. A vida avisa. A vida lança os sinais, bandeiras vermelhas. Faça.
Voltando à minha janela, onde o céu está azul, as folhas da palmeira dançam e os pássaros ousam voar, eu lanço uma canção. Estou mais para notas, do que para letras. Mais para sentir do que para ouvir ou falar.
Acabei de ver um vídeo de mil novecentos e oitenta e oito. Um tio meu, falecido e professor de engenharia, tinha um momento de fala durante uma aula da saudade e dizia: "aula da saudade. Nunca gostei desse nome. Falar 'saudade' é errado porque é como significasse desvinculação, como se fôssemos partir para luz e nunca mais nos ver, não é verdade?".
Sim, tio. Nesses três minutos que ainda me restam, ecoo tuas palavras e ainda acredito na impropriedade que é sentenciar o destino com uma palavra. E a palavra com um destino.
(Não tenho mais tempo. Gastei com dois textos anteriores, entre eles um posfácio precoce).
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Absurdos
Era dois mil e sete. Eu escrevia meu trabalho de final de curso, feliz com a temática que havia conciliado minha relação ambivalente com o direito: Inimputabilidade e semi-imputabilidade penal por anormalidade psíquica - uma abordagem psico-filosófica. Carregava os poucos livros sobre transtornos mentais e atos criminosos que encontrava, Foucault, um documentário sobre o HCTP (Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico), uma visita ao local e a vontade de escrever comigo, que resultou em oitenta e cinco páginas.
Não fui uma aluna exemplar de Direito. Mas fui de todas as cadeiras de Português, Sociologia, Filosofia e Psicologia que encontrei no curso e, estranhamente, também de alguns direitos civis e processo penal. Não cruzei com a matéria que adotaria como prática, paixão e profissão. Direito da previdência e seguridade social era eletiva. Me encontrou dez anos depois. Estamos juntas até hoje.
Tirei nota máxima na monografia. De tudo que percorri na vida acadêmica, escrever sobre o tema foi o que me despertou paixão. Levei a Nau dos Loucos, de Bosch, para a apresentação. Carreguei de arte e psicologia. Pude falar de Freud. Busquei pontuar formas de o Hospital de Custódia não ser uma prisão perpétua. Acreditei, com vinte e poucos anos, na minha tese. Acreditei em cada palavra.
Hoje, enquanto enxergo o direito através de um vidro embaçado, me sinto distante — muito distante — de suas soluções. Da aplicação jurídica. Da minha capacidade de alcançar a equidade na balança. Sei, não sou uma apaixonada. Longe disso. Mas, a despeito da minha preferência por outros caminhos, ainda me impregna a ideia de justiça. Ainda luto com as armas que tenho ao meu alcance. Ainda acredito que, cega, pode enxergar.
O que me despertou esse trajeto de retorno — que não me é prazeroso, embora não traumático — foi a notícia de um menino dentro da jaula de uma leoa. Um menino que não teve chance de sair. Lembrei da minha insistência em apontar soluções, na tese, para reinserção social dos internados sob medida de segurança do “Manicômio Judiciário”. Para reintegrá-los. Mesmo sabendo que não tinham chance de sair. Uma chama que não me alcança mais, embora essas linhas me parecem feitas de suas brasas.
Então, ao escutar a história do menino e da leoa, pensando na inevitabilidade do seu trágico destino, enquanto brigo com as feridas abertas da sociedade — essa sim, fera — torço para que algum jovem com vinte anos esteja buscando soluções que um dia nos alcancem.
Talvez um desejo absurdo, embora infinitamente menor do que o absurdo do triste falecimento de Gerson.
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
Ondina
Olhando pela janela, sinto a brisa que vem direto do mar de Ondina. A casa abandonada na areia, se não fosse minha estadia. As ondas entrando no piso pela parte inferior da porta e inchando a madeira. São quatro horas da tarde e aqui demora a escurecer. Um dos motivos que escolhi o local para escrever essas palavras. Meus problemas com a escuridão.
Esfrego os olhos. Pelo quê? Qual a conta do dia? Uso os colírios de sempre, as dores suavizam por minutos, me enganam os remédios, as receitas, os prognósticos para o bem. Estou ficando cego e ninguém teve coragem de dizer. Sabem que é com os olhos que vejo o que escrevo. E sabem que é com o que escrevo que… bem, voltemos ao papel, acabo de encontrar o lápis que perdi na mesa.
Eu gosto de ouvir as garças deste domingo. E admirar as que pousam nas pedras próximas. Ondina. Demorei a encontrar esse lugar. Como poderia se nunca o busquei antes? Ainda há pouco, em salões iluminados, fazia um brinde às histórias. Às partilhas. Ao senso comum. Desde que me falharam as funcionalidades do corpo, me falhou também a paciência social. Me falham as mentiras. Me cansam os sorrisos mascarados. As garças abrem as asas, fecham. Enfeitam de branco a paisagem azul. Por quanto tempo… não, não vou voltar ao lamento. Achei outra vez o lápis.
Está escurecendo agora ou… respiro ao constatar no relógio que já passaram das nove. Sim, a escuridão ainda não me é particular. A noite atinge Ondina e o mar se veste de azul profundo. As garças me abandonam e devo acender a luz antes que gaste mais uma folha. Quero descrever meu exílio nessa cela que escolhi. Quero contar sobre as manhãs laranjas em que me alimento de pão duro e café recém-coado enquanto sento nesse mesmo lugar. Sobre ter os papéis e não pertencer a nada mais. Já falei das garças, mas pecarei nesse ponto. Seriam indevidas quaisquer palavras.
Que Ondina é uma praia pouco habitada, certamente já percebeu. Onde poderia encontrá-la no mapa é o que desafio a fazer. A minha maior dificuldade em localizá-la foi necessitar dela. Ondina está para alguém que não está para nada mais. E é bela sim, embora aqui tenhas que amassar o próprio pão. Nunca me queixei dessa habilidade até precisar dela. É assim, não é? Sentimos o que falta?
Meu estômago reclamou. Tropecei na cadeira ao procurar o interruptor e amei a luz fraca que acendeu a cabana. Comi o resto do pão da manhã e esperei a água ferver. Demorei a encontrar o pó de café, sempre esqueço onde o coloco, por nunca estar pensando nele, mas em uma coleção de outras coisas. Onde estão os colírios? Voltei à mesa procurando por eles, não levantei e terminei escrevendo até esse ponto. O barulho de água fervendo me levou até a cozinha, onde coei o café. Bebo o líquido quente enquanto continuo esse registro. Uma garça perdida e graúda senta perto da minha janela. Sinto que olha para mim. Penso que me enxerga.
Por quanto… por quanto tempo… quando… quando vou parar… quando vai acontecer… quando… até quando? O animal abriu as asas, não foi? Eu vi o movimento. Eu vi… eu vejo, eu ainda… que lindo. Não falei que me eram imprecisas as palavras? Impróprias para um escritor. Eu não consigo, eu não consigo falar, não consigo falar das garças… não quero…. há luz, o lápis, recuperei outra vez, outra linha, sobre o exílio, sobre Ondina, sobre o tom alaranjado do lugar, o céu, pão, o café…
… menos as garças.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
"Porque quem é mesmo é não sou"
Se ele pedia licença, eu dava. Não havia mais razão para discutirmos. O homem era duro, firme. Quando queria, queria, era assim. Nunca fui boa com essas coisas de contundência. Amoleço no primeiro olhar.
Quando eu entrava na casa, era lei: que não olhasse para o canto direito, mas apurasse os ouvidos. Mais tarde conversaríamos e eu teria que ter as notas em mente. Sol, do, lá, Mi em reto. Minhas mãos pintadas de sangue quando errava... Mal sinto o polegar direito. E ainda as tarefas da casa para terminar... Eu apurava melhor do que podia. Desejando, se possível, melhor audição que a minha. Orelhas gigantes, memória infalível. Eu odiava o porão da casa.
— Venha.
Eu o ajudava a vestir o paletó, ajustava os desamassos e o acompanhava ao teatro. Nunca assistia a peça, (Nunca olhar. Escutar), apurava os ouvidos porque teria que narrar a parte técnica. Não adiantavam os aplausos, o homem não sorria. Entrava no camarim, eu virava as costas, se escutei tudo? Sim, perdão, sim, senhor. Senhor.
No porão há uma janela e uma luneta. Herança de alguém que habitou aqui. Talvez a mulher antes de mim. Os lençóis nunca foram trocados. Há marcas iguais às minhas. Quase sempre afundo no colchão e adormeço. Outras vezes, tento alcançar algo do céu com a luneta. Talvez tenha visto uma planeta, umas estrelas, coisas que estão lá. Eu não sei distinguir os borrões na lente, já quis ter estudado, já quis bem mais. Hoje, só desejo que apareçam, não importa que nome tenham e a forma que assumam.
A musica do homem é aplaudida, aclamada. Os teatros sempre cheios, os cumprimentos na rua, na igreja. Ouço todos, cabeça sempre baixa. O homem agradece, a voz automática. Grita à noite que não entendem. Ninguém entende. Muitas vezes não dorme, derramando notas pela casa. Se é belo? Nunca soube, nunca pude parar para apreciar. Eu cubro o homem exausto deitado no chão do tapete, recolho as garrafas. Não é bonito agora. Talvez no teatro seja sim. Eu preparo um banho gelado e arrumo as vestes. Não consigo organizar o que tem dentro, mas até que administro o que há fora. O homem tem olhos verdes, recordo. Só recordo. (Nunca olhar).
Uma vez quis tocar com ele. O homem riu. Mulheres não criam músicas, criam filhos. Já estive grávida. A criança viveu pouco tempo dentro de mim. As músicas do homem seriam imortais, ouvira uma vez. Mas o filho não chegou a nascer. Se tivesse... poderia olhá-lo. Poderia olhar alguém. E amar. Talvez o homem também. Ou talvez as pequenas mãos do filho já chorassem antes mesmo que crescessem. Se ele não escutasse. Sol, do, mi. Uma criança não merecia aquilo. Tomava ervas para não engravidar outra vez. (Não se preocupe. Estão bem escondidas).
A luneta é um objeto interessante. É quase um portal. Quando não afundo no colchão manchado de sangue, viajo para os planetas através dela. Batizei alguns, por não saber os nomes. O mais distante é o Aurora. Temo não alcançá-lo, ainda que em sonho. Raramente surge e quando o faz é apenas um borrão. Quase apagado. E as estrelas, se passam, passam rápido demais.
domingo, 12 de outubro de 2025
Lua Minguante
Minha filha desenhou uma lua minguante.
Uma lua ao contrário, invertida.
Não convencional.
Amanhecemos estudando as suas fases.
Nunca havia parado nesse tópico da astronomia.
Sempre olhei para o alto e admirei sua beleza, sem precisar compreender ou dar nomes.
Minha filha me fez nomear a beleza da lua.
E, me fez pensar, e escrever sobre ela.
Era só um desenho: montanhas, assinatura invertida, lua ao contrário.
Mas se não existisse as mãozinhas dela, criativas e cheias de cor…
se não existisse os olhinhos dela, curiosos e questionadores…
Passaria a vida sem conhecer as fases da lua.
E além.
Passaria a vida sem me conhecer.
Porque uma lua minguante, assim invertida,
me causa certa ternura e identificação.
Essa coisa de sombreamento e resistência, sabe?
“Uma estreita faixa convexa iluminada”.
A lua minguante está a um pontinho de apagar,
um passo de sumir nos céus
e virar lua nova, invisível.
Ainda assim, está.
Um fase, um ciclo.
Voltará a crescer, assim como minguar.
Voltará.
Sobre a lua nova, descobri não ser visível aos observadores, porque a sua face iluminada está voltada inteiramente para o Sol.
Como se desse as costas à terra e não nos permitisse enxergar sua luz.
Invisível, à noite, aos que não conseguem imaginar.
Mas visível durante o dia, para quem a busca.
E é nessa fase que ocorrem os eclipses.
Esse bloqueio de luz ocasionado por alinhamentos temporais, que chamei de fusão até hoje.
Mas a minha minguante não.
É quase sombra, mas ainda é luz.
Para a terra e para o sol.
E eu não saberia nada sobre lua, nem amanheceria amando a natureza peculiar de seus detalhes, se não fosse esse desenho feito pela minha pequena artista.
E que hoje acrescentou “astrônoma” à sua lista infinita de possíveis profissões…
domingo, 5 de outubro de 2025
A estação Saint-Lazare
Eu não esperava seguir até o terminal. Ruído de motor, cheiro de diesel, as rodas girando, freando. A mulher sentada abria o jornal e cada passagem de folha me arranhava as coxas. As notícias ferinas do dia. Apesar, Recife, quero estar aqui até morrer. Afogada em teus níveis abaixo do mar. A brisa nos cabelos, assanhando a alma. O ônibus voando pela Avenida Beira Mar e cortando as pontes até o centro.
— Última descida. Vamos acordar!
Na Estação, cheiro de histórias. Piso em tijolos pisados. Tec, tac. O eco dos meus sapatos, meus pés. Talvez sinta falta. Andamos aqui. A Rua Nova, antiga. Sobrados por todos os lados. Muitos vivem no mesmo lugar em que muitos morrem. Sempre gostei dessas filosofias dos becos. Corto as ruas, sinto as cicatrizes. Faço algumas, recebo outras. E ali, a loja de livros religiosos.
—Licença.
Toda.
Meu pai e a teologia. Boneco de Jesus Cristo. O presépio no natal, os animais espalhados... burro é jumento? Onde estão os pássaros? Cachorros, patos? O que é mirra? O pai nunca respondeu. Deveria saber. Não era a grande história? Teologia. Abria a agenda e escrevia todas as manhãs. Onde entrava a melhor luz na casa. Distante, sábio. Olhos cinzas. Lembra o quadro. A estação Saint-Lazare. Dizem que Monet pintou várias vezes… pinceladas simulando fumaça de locomotiva. Nunca satisfeito. Meu pai tinha olhos de fumaça… Nunca satisfeito. Gostava do quadro. E de estações. Do pai também?
— É perigoso ficar na rua até tarde, mocinha.
O bêbado sorri, será que sabe que perdeu os dentes? A chave emperra, giro, puxo, giro até o clec fazer surgir as escadas. Desci hoje pela manhã, um, dois, tec, tac, treze lances. O número do azar. Amanhã descerei outra vez. Subo agora. É assim, não é? Idas e vindas. Mas gosto. Gosto dos movimentos rotatórios. Dá esperança. Gosto… Não quando repito os gestos. No lugar de melhor luz. Distância, linhas, um sorriso para ninguém. Medo de ser igual. Sinto calafrios ao dobrar as esquinas. Abro as janelas.
— É um forno.
Sim. A noite não abranda o calor do dia. E o vento não entra nem com a janela escancarada. Tiro a roupa, bebo litros d’água. Recife, “quelle chaleur”! A francesa que morreu no prédio vizinho, me ensinou algumas frases. Não quer conhecer a França? Tudo bem, nunca quis conhecer o Brasil, mas aqui estou, ma chérie. Há varios lugares do Globo onde poderia estar, mas poucos em que gostaria. França? Talvez, talvez a Estação Saint-Lazare…. ainda existe? Como seria enxergar a locomotiva através da fumaça? Os olhos do meu pai enevoados. Talvez fosse mais fácil com a fumaça.
— Shhh.
A luz natural atravessava o vidro ou a janela aberta perto da mesa da sala. Ele está escrevendo, silêncio, cabeça baixa. A mesa era de madeira avermelhada, vidro no meio, arranjo no centro. Todas as manhãs minha mãe arrumava as flores artificiais. Como se adiantasse cuidar de algo que não possui vida. Via pousar a mão no ombro do meu pai. Ficar por segundos? Acho que mais. Ele nunca se movia. Uma estátua de pedra. Cinza. Firme…
Sonhei com ele ontem. Eu descia uma torre antiga de escadas giratórias. Encontrava um pequeno lago no fundo e uma estátua. A estátua falava. Era ele. Fugi, subi correndo, escorreguei? Parecia uma terra antiga, campos verdes. O que falou… Não consigo recordar. Queria lembrar, queria, queria lembrar se ao menos trocamos algumas frases. No sonho, na vida. E que mulher a minha mãe! Dela, gosto. Arrumava as flores, alisava o meu pai. Colocava os cabelos que fugiam no lugar.
Como se adiantasse.
quarta-feira, 24 de setembro de 2025
Síndrome de Takotsubo
—Bom dia filha, cadê tu?
Eram oito e meia, quando a tua mãe te enviou a mensagem. Você não respondeu. Tinha outros interesses. Também recusou os ovos que te pediram no mercado. Não precisam ser todos, apenas três. Acreditou que ele venderia. Que não precisava daquela ajuda, mas de outra.
Você deu um beijo apressado no marido quando ele viajou a trabalho. Voltaria logo, a cidade era vizinha, ali. Você não demorou no abraço na última vez em que viu sua tia. Era só mais um abraço. Outros viriam.
Quando você a reencontrou, na sala isolada do hospital, onde a herpes zoster a segregou perto do fim, você não conseguiu falar. As máquinas em pi, pi, pi, simulavam, não é isso? Seguravam o que? Era vida? Meia vida? Enquanto houver respiração, é vida? O que diz a medicina?
Você achou que ela não escutaria e não se despediu. Você não consegue falar quando está emocionada. Nem chorar. Guarda. Pelo menos até virar linha. Pelo menos até um novo texto.
Quando teu amigo sofreu o acidente e você encontrou a mãe no dia seguinte, não conseguiu ficar ao lado dela. Nem dele. As mãos estavam frias, a pele esbranquiçada. Difícil aceitar que talvez não escutasse mais a voz. E o riso. Uma gaitada em rá sublime. Você sorriu lembrando, não foi? Era único. E não é. Não é mais.
Você pensa que tudo bem. É assim que as coisas são. Não há previsão para a próxima angústia. Você se amarra na culpa, deixa-se enforcar. Remói achando que poderia ser diferente. Que poderia controlar. Se engana e sufoca. Você mal respira quando dói.
Você pensa que deve fazer os exames e passa um dia e depois outro e encosta as pilhas de prescrições. Inventa desculpas, não agenda as consultas. Você corre na esteira enquanto o joelho dói. Condromalácia. Você sabe que não deveria. Mas faz.
Quando recebeu a pasta, cheia de cartas, fotos, lembranças que fez na infância e direcionou ao pai, não achou que ele guardaria. Nem que seria parte de tua herança recebê-las de volta. Assim como a caixinha de jóias que presenteou tua tia no natal. Você não queria de volta. Você pensa em nunca mais comprar presentes.
Mas você agradece. Há um lugar onde pode derramar tudo. Para tirar do peito. Você acha que não deve escrever assim. Em lamento. Era para ser um exercício e virou um diário. Uma lista de coisas que você se engana achando que poderia controlar. E tem mais. Mas você cansou de escrever sobre elas. Já chorou por hoje.