sexta-feira, 13 de julho de 2007

Drama I

Tirara as unhas de porcelana, analisando sua imagem.
Loira, pele bronzeada, corpo escultural e um sorriso perfeito que raramente aparecia.

Prendeu o cabelo com uma fivela, deixando alguns fios soltos caídos nas costas. Entrou no banheiro.

O dia tinha sido longo. Duas aulas estressantes pela manhã, um comparecimento ao grupo de estudos de psicanálise, que ela mesmo criara, e depois, trabalho.

O nome do cliente era Jorge, 37 anos. De início era o que sabia. A agência ligava e informava-lhe onde se encontrariam e o perfil do cliente que teria pela frente.
Perfil?
Informavam-lhe um nome, que poderia nao ser verdadeiro e uma idade que geralmente era falsa. Diziam-na alguns fetiches do cliente e local de encontro escolhido. Alguns, preferiam tomar um drinque antes de irem pro motel. Os solteiros, divorciados, mais tímidos, nervosos ou marinheiros de primeira viagem. Alguns, cativos, já tinham um local certo e raramente o inovavam. Geralmente, encontravam-se lá. Algumas vezes chegava antes do cliente e ficava estudando na cama. Nao foram raras as vezes em que estudou no motel, nos intervalos dos encontros. Principalmente em época de provas.

Ligou a ducha quente, deixou cair a toalha e entrou no chuveiro, relembrando seu dia:

- Oi, Antônio.
- Melina? Desligou o celular? - questionou seu agenciador.
- Sim, Tony. 'Tava na aula, vc sabe as regras: nada de...
- "...ligações pela manhã e nem em dias de domingo", sei sim. Mas nao queria falar de trabalho. Tem tempo hoje pro almoço?
- Nao. Quer dizer, na verdade, até tenho. Mas 'to indo almoçar agora. Já são 13:20, larguei tarde da faculdade hoje. To indo direto pro restaurante e vou comer correndo. Marquei grupo de estudo às 14h.
- 40 minutos pra mim, entao?
- Sim, nada mais.
- Tá ótimo, se é só o que tenho, vou procurar me virar com ele. Pra onde vc vai?
- Pra nova pizzaria, sabe onde é?
- Perto do Centro, sei sim. Daqui há 5 minutos to chegando.
- Ahahaha! 5 minutos? Se vc conseguir, te vejo por lá.
- Verás, garota.

Mal estaciora o seu carro, alguém bateu no vidro:

- Atrasada.

Era Antônio. Aliás, era o sorriso de Antônio que parecia até chegar antes dele. Lindo, enorme.
De calça preta, blusa cor de vinho, gravata preta, sem paletó, parecia saído da passarela de qualquer melhor estilista da europa.
Como alguém como ele chegara a trabalhar no que trabalhava?

- Que mágica vc fez? Já sabia que eu bato ponto por aqui e ficou me esperando?
- Linda, eu sempre sei onde vc bate ponto, esqueceu? - falou, sorrindo
- Seus 40 minutos estão se esgotando, senhor. É melhor que me diga logo o que quer de mim. - estreitou os olhos, fingindo seduzi-lo.
- Nao faz isso que eu desmarco teu cliente das 17 horas e tiro seu dia de lucro. Vai ter que ficar comigo, de graça.
- Um dia, quem sabe. Vamos entrando?
- O que vc quiser - fez sinal, mandando-a seguir na frente.

Ele a analisava enquanto ela andava. A roupa era sóbria. Calça preta, justa, blusa de botao, sem decotes, cabelo preso displicentemente. Que homem a imaginaria como uma das garotas mais concorridas de sua agência? Cheia de livros no carro, aulas e grupo de estudos, aluna aplicada, maiores notas da sala, inteligente e linda. Nem os óculos de grau, de armação simples, deixavam-na menos exuberante. Como alguém como ela chegara a trabalhar no que trabalhava?

- O que vamos pedir? - perguntou ele, quando estavam acomodados.
- Pra mim, o "de sempre", o garçom já conhece. O que vc vai querer?
- O que você quiser me dá.
- Nao sou eu que dou aqui, é o garçom. Vai repetir esse pedido pra ele?- falou, rindo. Adorava o jeito que ele brincava, provocando-a.
- Se ele tiver o seu corpinho, pode ter certeza.
- Ahahahaha! Te odeio.
- An??? Sou seu chefe, garota. Tá no juízo perfeito? Dizendo isso pro seu chefe?
- Vc só manda em mim até onde eu permitir.
- Isso nao soa atraente. Na tua ficha, se nao me engano, tem algo como "sem limites".
- Nao quero falar sobre isso, ok? - disse, séria.
- Mas é sobre isso que quero falar, Melina.
- Trabalho? Eu 'to na minha hora de almoço, Antonio. Se eu soubesse que era sobre isso que vc iria falar, nao o deixaria vir. Vc me prometeu que nao falaria sobre trabalho.
- Espera eu fumar um cigarro?
- Já se passaram 12 minutos.

Tony acendeu o cigarro. Olhou pro lado e certificou-se que estava no lugar reservado pra fumantes. Nao tinha muita noçao do tempo, estado e local, quando se encontrava com aquela mulher. Dois anos e alguns meses na empresa, já. Ele que a admitira. Suas fotos, chegaram até ele, através de seus informante da faculdade em que ela estudava. Marcou a entrevista e nao compreendeu. Era contrastante a personalidade dela com as suas caras e bocas, enquanto desfilava pra ele de lingerie. Linda, mas completamente fora daquele papel. Há dois anos pensava sobre o porquê daquela garota. Chegara a hora de saber?

Tragou fundo. Deixou que a fumaça invadisse seus pulmões e imaginou-a preenchendo todo o seu corpo. Soltou-a, lentamente, enquanto a olhava.
Daqui há pouco, seus minutos acabariam.

- Vou expandir os negócios. Abrir outra agência, aliás, outras agências em três países da Europa. Fecharei a do Brasil, nao quero mais ficar por aqui.
- Ninguém me disse nada - falou, espantada.
- Lógico que nao. Eu que tinha que dizer. Entao, 'to levando algumas garotas pra lá. As melhores. Quero saber se você quer ir.

Sem chão. Pediu pra responder depois. Achou que aquele homem, atraente, pediria pra cancelar o cliente das 17h e viver um romance com ele. Mas o que ele fez foi colocá-la diante de seu pior pesadelo: sem emprego, como pagaria a faculdade? Na europa, como faria facudade?

Depois do almoço, estudou com pouco afinco e entregou-se passivamente ao cliente das 17h. Deixou-se beijar, fez sexo carente e como que, saudosa, daquela vida que levava. Nao era a ideal, nem era boa, alguns consideravam indigna, mas era a que tinha. E a estava perdendo... Transou com saudade da vida que nao amava, mas que a fazia sobreviver.

Aumentou a temperatura da água, soltou os cabelos e entregou-se ao chuveiro. Sempre tinha uma palavra de consolo pros outros, era o que estudava e era boa em seus estudos. Mas nao tinha quem a consolasse, pedisse pra mudar sua cara triste ou transformasse suas lágrimas em sorrisos...
E pensando em sorrisos, pensou em Tony. Sua paixão daquela tarde e pesadelo daquela noite.
Amanhã, de 13h ficaram de encontrar-se no mesmo local e ela lhe daria a resposta.
Nao vê-lo novamente... surpreendentemente aquilo a incomodava...

Ensaboou bem o corpo, saiu do chuveiro, analisou as marcas da paixao deixadas pelo último cliente, vestiu uma camisão pouco atraente e foi dormir.

5 comentários:

Eduardo Magrão disse...

Ola Paula, te observo algun tempo, permita-me acompanha-la no passeio dos seu dedos pelo teclado do PC neste DRAMA I da vida ficsional.

Historias tão comuns e ao mesmo tempo tão reais..
Estarei por aqui degustando as aventuras da heroina sem nome..
será que vai pra Europa ?
será que fica por aqui ..?

Voce, pelo seu talento ta salva nos meus Favoritos e de lá acompanharei esta saga moderna..

bjs e muita merda pra voce ..

Victor disse...

isso é um curta, moça. estreando com direito a "cults" de boca aberta no cine pe. se eu soubesse escrever roteiros, já estaria negociando com você os direitos. :P

Eduardo Magrão disse...

Antes que alguem pense coisa que não deve ....
desejar "muita merda" no meio artístico é desejar muito sucesso ..é um costume no meio artistico daqui de sampa ;)

Mania disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago disse...

Acho tão interessante o facto de tu terminar as histórias sem terminá-las. O final fica em aberto mas sem aquela sensação de que tá faltando algo.