quarta-feira, 18 de novembro de 2009

MG

Bem, é certo que atraia novidades e tipos interestaduais. Tinha um encanto brejeiro, que atraía, por assim dizer, por espanto - qta inocência nesses dias!! Sua amiga pegava o canudo e fazia um olhar sedutor, enquanto ela apenas sorria e dizia: cmg nunca vai dar certo!
Minas Gerais esconde pessoas assim: olhos pequenos admirados. O nome é de sertanejo, falta a dupla, eita apareceu, nada falta mais!! "Preferimos Brahma a Skol! Eita, ó lá, o cara se equilibrando na corda! Tem sempre disso aqui? Vai cair!Noossa! Vcs colocam coentro em tudo aqui. Sabe um lugar bom pra almoçar, sem coentro?!". A noite passava e caía na risada: sim, era possível sorrir. Pessoas despertam isso, são o tempero disso, origem, meio e fim. Subiu pro banheiro com a amiga sedutora - a que ficou perguntou: é aquela? E ele disse nao. É a outra e ele apenas sorriu. Ao voltar, sabia-se a escolhida. E já sabia disso bem antes de precisarem de palavras. Olhares e sorrisos nao mentem. A noite era um encanto e deixava cair magia. Ela abria os braços em pensamentos. Em ação, encostou-se na parede. Do lado, um novo alguém. Ainda desconhecido, revelando encantos. Transparecia em pequenos detalhes. Nas coisas simples. Pessoas se revelam em gestos pequenos. Era observadora, notou. "Cuidado com a rua!" Puxava ela pra mais perto, enquanto os carros, tantos, passavam, bem proximos. E ela distraída. "Cuidado com a rua", olhando pro galego que já postava-se do seu lado, cheio de olhares. E ela distraída. E riam daquele pequeno segredo novo. Ao desperdir-se um até logo. Ao ir embora, a ligação. Ao deitar-se a mensagem. "Saudades". Sim.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sobre bonecos e ruas

Sim, existe o colorido momentâneo e tudo aquilo que se vive - pensou. Apontou pro boneco de Olinda que aparecia pela janela de uma das tantas casas daquela rua em que caminhava a dois. "Olha, já viu?". Mostrava aquilo como se dissesse: "Isso sou eu, gostas?" E ao mesmo tempo em que queria que ele nao gostasse, permitiu-se deixar ser gostada por ele. Sim, as ruas de Olinda tem uma cor sem igual, ele dizia. "Nao saio mais daqui". E ela se calou pq nao sabia se queria que ele ficasse. Sim, existe o colorido momentâneo e tudo aquilo que se vive. Frases a invadiam e diziam: é hoje e somente hoje é o que é, vá. E ela decidiu ir e colorir-se mais uma vez. Pq vale a pena andar de mão dadas em ruas como essas e sorrir com as besteiras que se descobre a dois. E apesar das mãos estarem sendo tomadas e sua vida, mais uma vez, invadida: nao se sentia mais a vontade pra andar assim, junto. Queria sorrir, é fato. Queria abrir a janela e deixar o sol entrar, queria dividir a beleza que sentia em coisas simples. Queria admirar e respeitar o ato do outro, que dividia a água com a velhinha dançarina daquela rua. Gostou do sorriso, sorriu de volta. "A velhinha sempre estará ali, dançando e declarando amor apaixonado ao violeiro que canta na varanda daquela bodega!", ele dizia. "Mesmo que tudo mude ao seu redor", ela pensava. Mesmo que coloridos venham e vão, em novas cores. Mesmo que as cores antigas nao mais importem ou que seja melhor pensar assim. A velhinha continua dançando e as janelas estao abertas pra que vc mostre a alguém a beleza de um boneco, o encanto de um momento e viva a noite com alegria. E amanhã, um novo dia.

domingo, 25 de outubro de 2009

Silêncio.

Nada mais falou, resolveu calar pq qualquer palavra dita poderia estragar o momento. Ouviu o último suspiro, sorriu em favor e pensou naquele instante que nenhum dos dois precisariam de palavras. Isso seria amor. A compreensao do calar, o viver do momento em que se está apenas junto. E nada mais. Pq o nada, por vezes, é tudo. E aquele momento, como tantos outros que já viveram, apesar de aparentemente ausente de emoções, trazia em si tanta importancia quanto todos os outros. O que importa nao é a aparencia, mas o que se sente. Ninguém pode esconder de si o que se passa por dentro. Adia-se, esconde-se. Mas nunca por muito tempo. Quem somos é sempre reflexo do que vivemos. Como a teoria da tábula rasa, sabe? De que somos vazios ate o viver. Entao cuide bem de seus proximos passos. A todo tempo nos é oferecido caminhos para mudar o que incomoda, consertar o que nao é certo, buscar o que se sonha, realizar o que se busca. É dificil, por vezes, olhar pra si e reconhecer que, na verdade, nao somos tao bonitos e perfeitos e passíveis de desacertos. Não. A verdade sobre o que não queremos ver em nós, pode doer sem duvida. Nada tem a ver com o que esperam e com o que esperamos de nós mesmos. E naquele momento, calavam, pq estavam voltados pra si mesmos. Conhecendo os monstros que os habitavam e que podiam, há qualquer tempo, emergir e estragar aquele momento. Sabiam que nao se julgavam e que aceitariam as vírgulas que tbm o faziam ser o que eram. Qe discutiriam e se resolveriam pq se respeitavam e se amavam, a despeito de tudo. Mas calaram. E calaram pq escolheram o sorrir. Calaram pra tbm calarem os monstros.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Amor e liberdade

Eu tenho pensado bastante a respeito de liberdade e relacionamento. Acho que uma coisa nao anula a outra e vice-versa. Nunca fui a favor de pessoas que se anulam pelo outro. Tenho uma personalidade forte o bastante para jamais querer destruir em mim coisas que eu sempre amei só pq nao sao aceitas por qualquer pessoa, mesmo que eu a ame. Entretanto, me pego pensando qual a diferença, afinal, de relacionar-se com o outro, se nada muda, se tudo é igual, se nao nos transformamos com essa uniao, se continuamos tao só o que somos e jamais nos permitimos ser um, porém dois e dividir? Se eu me proponho a andar de maos dadas pela vida, existem esquinas em que vou olhar pro lado e pedir a licença do outro para entrar. E convidar, afinal, estamos ou nao estamos caminhando de maos dadas? Amar é tanta coisa a se definir que eu nao sei precisar. Eu vejo no amor o ato de dividir, de acompanhar e, sem isso, estamos sós, mesmo se estivermos acompanhados. Não é querer podar liberdade de alguem, nao é exigir que o outro lhe peça permissao e nem deixar que o outro comande o que vc vive. Acho que jah ouvi varias vezes e concordei em todas as vezes que ouvi, que amar é ceder. Nao o que somos, nao o que desejamos e o que sonhamos. É ceder aquele espaço que antes era vazio ou ocupado com milhoes de coisas sem sentido para um outro disposto a ali sentar, participar e dar sentido a tudo aquilo que antes nao tinha. Se algo quebrar em tua vida, eu ajudo a consertar. Se a melhor musica toca na minha estrada, eu te convido pra ouvir. Pra mim, amar eh isso. Participação sem arestas, sem vírgulas, sem impedimentos, sem segredos. Pq os segredos acabam com o amor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Há de se esperar alguma especie de boa vontade, senao de compreensao da borboleta para com o elefante. Sim, porque a nao ser a diferença gritante de tamanho e cores, por um ser menor e o outro ser grande, por um ser cinza e o outro ter cores, nada mais são do que semelhantes.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Primeiro dia

Terminada as estafantes instruções da secretária que a atendeu sobre o que deveria fazer dali por diante naquele novo trabalho, resolveu dar uma passada no banheiro e conferir o visual. Acontece que eram 8hs da manhã e aquele horário nao era seu, de hábito. Por andar de ônibus acordara umas 3hs antes apenas pra chegar na hora certa e, pelo menos, parcialmente apresentável. A maquiagem simples, leve : pó, lápis e brilho labial. Não havia como encobrir as olheiras que herdara daquela noite mal dormida. Disfarçara apenas. Saiu procurando o banheiro...

-Olá.
- O-oi, respondeu surpresa.
-Vc é nova aqui?
-Deu pra notar?
-Vc não tá fazendo esforço pra disfarçar.
-Nao? Droga, pensei que estava.
-Má atriz.
-Ok, fazer o que...e vc? trabalha aqui faz tempo?
-Nada, novo tbm. Primeiro dia.
- Tbm? Pelo menos vc disfarça melhor do que eu.
-Bem melhor. Qualquer pessoa faria isso.
-Tão ruim assim?
-Como atriz sim.
-Mônica.
-Eduardo.
-Prazer - os dois juntos.
-Bem, secretária da área de finanças.
-Vai receber mta ordens...
-Como vc sabe?
-Bem, vou ser seu chefe. Diretor do financeiro.
-Uau.
-É....
-Pega leve no primeiro dia, pelo menos?
-Claro, reparei nas suas olheiras.
-Er...
-Mas nao se preocupe. E durma melhor hoje. Quero vc sem olheiras amanha.
-Primeira ordem?
-Sim. Incontestável.
- Ok, chefe.
- Eduardo.
- De que?
-Eduardo apenas.
-Começo por onde, Eduardo?
-Vá pra casa hoje. Volte bem descansada amanha.
- Só?
-Por ora.
-Mas...
-Vá. Tenho mta coisa pra fazer hoje. Pessoas pra conhecer e me apresentar. Nao vou ter tempo pra vc. Nao chore.
-Ahahahaha. Bom humor.
-De 8hs da manhã? Impossível.
-Ironia.
-Isso.
-Entao... foi um prazer, Eduardo. Até amanha....
- Até, Mônica. Não esqueça de dormir bem. Amanhã temos um mundo de coisas pra realizar.
- Virei descansada.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Menino e Menina

Sabe-se, que de alguma forma, lá no final daquela cidade, entre cochichos e "ouvichos", diz e me disse, havia aquela história de arrepiar os cabelos até do coração: Magno Cordeiro, rapaz quase homem, era, por si só, o personagem principal. Desde criança andava com Luísa e beijava seus cachos e brincava de par. E até que ganhassem corpo e pensamento de quem já cresceu: andavam de mãos dados por lá e por cá, pra qualquer um ver, qualquer um olhar.
Eis que vem o primeiro amor de Magno e - que surpresa- não era Luísa. A moça, ou melhor: mulher, tinha mais de 12 anos a sua frente e sabia fazer jeitos e trejeitos que nem imaginava Luísa. O pegou com um olhar, mão na boca, batom vermelho. E depois de o pegar, lhe caçou com um beijo. E aí o menino, mal crescido, franzino, achou decerto que cresceu e ficou com ares de homem. Luísa não o reconheceu: andando espigado, nariz empinado, braço dado com aquela... bem, essa estória foi assim que começou.
Luísa chorou, derramou bastante lágrimas, mas mal teve tempo de pensar demais: seu corpo aflorava, seus cachos abriam e seus pés a guiavam pras danças e festas que começava a descobrir que existia. E seu corpo moldava mto bem no corpo dos muitos rapazes que a chamavam pra dançar e ensinar seus passos tímidos de moço. Muitos apaixonados, encantadas, querendo beija-la, ama-la, casar com ela. E ela sorrindo a uns e outros, descobrindo todo o efeito do balançar de seus cachos e do som do seu sorriso.
Magno bebia, bebia mto. Aquela mulher o deixou, o trocou por outro: mais moço. Virara o bêbado da cidade, sujo, dormira em praça, dormira em ruas e brigava em festas daquele tipo, em que Luísa dançava.
Depois da última virada, daquela cachaça, resolveu fazer o que devia
Pegou, pelo braço, adivinha: Luísa.
Ela se virou e fechou os olhos, incomodada com o cheiro de cachaça. Magno, inebriado, vendo torto, vendo nublado,tascou um beijo bêbado, urgente, qualquer. O primeiro dela. O último dele. Suado, molhado, violento. Insano.
Mal acabou e Luísa fez o que era certo: sua mãos, certas do que queriam, seguiram pra um estalo, bem em meio ao rosto do bêbado. Olhou pra saber onde bateria e viu: entre trapos e farapos, era o seu Magno. A mão parou, a tapa nunca existiu. Virou-se correndo, as lágrimas escorrendo, cegando, fazendo-a tropeçar uma, duas, outra vez.
E o bêbado não desmaiara com a primeira pancada na cabeça, demorava bastante, sentindo cada pé e mão que se fechavam contra ele, o cobriam, causando-lhe dor.

Noite na cidade:
Ele, desmaiado e apanhado em meio da praça, não sonhava mais com nada. Ela, acordada, deixando cair as lágrimas, pensando em como seria, em como eram, sonhando que nada fosse assim. Que fosse amor...

Parece que ele, Magno, acordou e, por um instante, afastando a embriaguez, soube que beijara Luísa. E soube, com toda a certeza de sua vida, que não havia outra, nunca houvera nada: existira foi o medo do estremecer do seu corpo ao beijar seus cachos, do pular em seu coração qdo apertava a mão dela, das pernas bambas quando ela se aproximava, do jeito que a olhava quando nadavam sem roupa, da pancada no peito quando ouvia uns tantos falarem dela, do piscar dos seus olhos, do som do sorriso, da vontade de beijar....crianças, apenas, crianças.... tanto medo, fugira: encontrara aquela mulher, amara. Amara Luísa nos braços dela. Afugentara em seu corpo o seu desejo, queixava em seus ombros o seu ciúme, bebia em cachaças de festas as danças dela. Bateu e arrumou brigas com quem a tocou. Apanhava com um sorriso, batia com outro: vingava-se com todas as forças das danças que eram dele. Quase matara, quase morria.

Nessa vez, apenas nessa, a desraça veio com um beijo: sabia os pensamentos do desgraçado que dançava com ela, ouvira entre garrafas quando ele falou. Protegeu Luísa dos enganos daquele. E o beijo afastara ele, afastara tudo, o mundo, a morte, a vida. Valia cada dor em seu corpo, cada parte quebrada.
E, agora, nesse momento, podia, muito bem, fechar os olhos e morrer. Lutou com a escuridão do fechar das pálpebras. Viu o último sol brillhar em seu rosto. Imaginou, por um instante, que ela o chamava, que estava ali. Apertou as mãos de sua imaginação. E sorriu.